Briga por herança da Pernambucanas “é feroz, envolve muito dinheiro”
Diretora de série no Globoplay sobre Anita Harley, Camila Appel fala dos bastidores da produção e de novo livro
A carreira de documentarista de Camila Appel, 44, tem carregado um tema: retratos de mulheres, seja em posições de poder ou de vulnerabilidade. Após roteirizar Xuxa, o Documentário (2023) e Em Nome de Deus (2020), que dá voz às vítimas de João de Deus, ela acaba de lançar, como diretora, O Testamento: o Segredo de Anita Harley.
A série documental, que estreou no último dia 23 no Globoplay, acompanha a briga pela herança de Anita Har ley, uma mulher discreta, dona do império das lojas Pernambucanas. A principal acionista da rede so freu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2016 e está em coma desde então.
A fortuna, avaliada em mais de 1 bilhão de reais, é alvo de disputa entre a secretária de confiança, Cristine Rodrigues, a funcionária Sônia Soares, que residia na mansão da empresária, e Arthur Miceli, filho de Sônia, que busca reconhecimento de maternidade socioafetiva. As duas mulheres afirmam ter sido companheiras de Anita.
Além de documentarista na TV Globo, onde colabora com Pedro Bial, Camila atua como escritora e lançou na semana passada o livro Enquanto Você Está Aqui, com o foco em tratar da morte com naturalidade, algo que faz desde 2014 no blog Morte sem Tabu, na Folha de S.Paulo.
Na série, você conta que conheceu a história de Anita por acaso: seu pai ficou hospedado no quarto ao lado do da empresária no hospital. Por que decidiu investigar mais?
Em 2021, quando meu pai calhou de estar ao lado dela, eu já queria falar sobre diretivas antecipadas de vontade (documentos em que uma pessoa registra instruções sobre tratamentos médicos que de seja receber em fase final de vida). O tema mexe comigo. Queria tratar no Conversa com Bial e comecei a buscar histórias, até que uma advogada me procurou com um documento deixado pela Anita, que tinha sido descartado juridicamente, em que ela nomeava a Cristine Rodrigues. Aí mergulhei fundo para entender.
O que sentiu ao descobrir o caso?
A imagem da Anita ali no hospital, sozinha, uma mulher em coma, me marcou demais. Eu ficava imaginando ela do outro lado da parede. Aquela mulher tão vulnerável, sem poder ter voz, me comoveu.
Como foi tirar a ideia do papel?
Foi um processo longo e muito difícil de aprovação e convencimento. Primeiro, por que é uma batalha jurídica. Também porque é a história de uma pessoa que não é famosa, mas a empresa é. A gente tem um saudosismo, a Pernambucanas já foi muito grande, toda cidade de interior tinha uma. É muito presente no imaginário brasileiro.
Como foi o contato e as entrevistas com os envolvidos?
Só as primas e uma amiga aceitaram logo de cara. O restante, absolutamente todos, foi muito difícil conseguir. Não que riam falar. Porque é uma intimidade muito grande. Mas acabaram falando porque cada um quer uma coisa. Entenderam que têm objetivos e que talvez a exposição pudesse ajudá-los, o que foi uma grande sorte minha. Ainda assim, negaram várias perguntas. A Cristine Rodrigues, por exemplo, não quis contar a história das duas. Anita é descrita como a “dama discreta do varejo”.
Acha que a discrição se mantém com a disputa e o filme?
Depois que eles decidiram falar, abriram mão um pouco de preservar a privacidade dela. Mas eu tive contato com várias situa ções da Anita que não levei para o docu mentário, porque achava que poderiam prejudicar a imagem dela sem agregar à narrativa. Tem informações sobre a vida privada que ficaram de fora. Tomamos vá rias decisões com todos os personagens, para não trazer alguns pontos deles e pro tegê-los em algum aspecto. É uma briga muito feroz, envolve muito dinheiro, tivemos essa preocupação.
“Cada um quer uma coisa (na disputa pela herança). Eles entenderam que têm objetivos e que talvez a exposição pudesse ajudá-los”
Camila Appel
Por que se interessa pelo gênero documental investigativo?
Me apaixonei pelos desafios. Gosto de um problema. Todo mundo tem algo a perder. Todo mundo se expõe com algum objetivo. É vida real. São histórias humanas. A partir dessas histórias, podemos falar sobre a nos sa sociedade de um modo geral. É um mo do de popularizar e trazer reflexões sociais. Você coloca um tema na mesa, para ser discutido, graças ao alcance muito grande. As pessoas ficam mobilizadas, ainda mais por ser uma história real. O poder de alcance e reflexão duradoura me ganhou. Há uma onda de obras de true crime hoje em dia.
Qual é o diferencial para não cair no sensacionalismo?
É um limiar. Não é jornalismo, mas não é entretenimento. A questão ética tem que sobressair. Os entrevistados sabiam que iam ser questionados. Trouxe a eles os pontos que seriam abordados, para ninguém se sentir traído com o resultado. Também tive mos cuidado com as simulações, para não pesar na tinta. A história era desconhecida e tinha pouco arquivo, nenhuma cobertura.
Uma questão que você traz no seu blog é: o que você quer ser quando morrer? O que tem por trás dessa pergunta e qual é a sua resposta?
Eu comecei essa brincadeira porque achei curioso e cômico quando descobri possíveis destinos para as cinzas. Achei que poderia ser uma forma de começar uma conversa difícil. Você quer ser fogos de artifício? Tem uma empresa que faz. Disco de vinil ou diamante, como no caso da Preta Gil? Também tem. As cinzas podem ser jogadas no espaço para orbitarem a Lua. Podem virar árvore, estátua, pinturas. Tem até inteligência artifi cial que aprende a pensar e responder como a pessoa. Existem muitas possibilidades. Pessoalmente, tenho aflição a enterro. Gostaria de ser cremada. Deixaria para meus filhos escolherem e terem em um lugar sagra do, para meditarem, ou se tiverem religião.
O blog foi o embrião de seu livro. As discussões sobre a morte mudaram desde que começou essa pesquisa?
Os profissionais do setor funerário relatavam muito preconceito. Hoje temos política nacional para cuidados paliativos, por exemplo. Mas a principal mudança que vejo é na expressão do luto. É um dos assuntos que exploro no livro. Tenho visto muitos posts sobre perda de alguém, pessoas com diagnóstico de câncer virando influencers, que eu chamo de “oncocelebridades”. A rede social virou uma forma de se comunicar com o além. Todo mundo passa por isso. A morte deveria ser uma experiência coletiva, em que uma pessoa apoia a outra.
Publicado em VEJA São Paulo de 13 de março de 2026, edição nº 2986





