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Por trás das cortinas

O cenotécnico Clemildo Pinto da Rocha, de 77 anos, trabalha há 21 no Tuca, teatro da PUC, e tem muitas histórias pra contar

Por Livia Deodato Atualizado em 5 dez 2016, 16h12 - Publicado em 22 mar 2013, 20h25

Se você já foi alguma vez ao Tuca, o teatro da PUC, deve ter se deparado com Clemildo Pinto da Rocha. O cenotécnico de 77 anos, que aparenta ter uns quinze a menos, está sempre lá, desde 1992: ele se divide entre recepcionar e bater papo com o público no hall, dar uma ajuda na bilheteria ou fazer os últimos ajustes no palco antes de o espetáculo começar.

Isso tudo até onde nós, espectadores mortais, conseguimos observar. Atrás das cortinas, Clemildo presta ainda mais serviços – de transporte, montagem e manutenção de cenários (sua função primordial) a apoio aos atores, geralmente grandes nomes da TV e do cinema. Fábio Assunção, em cartaz até domingo (24) com Adultérios, é um deles. “O Fábio é uma pessoa ótima de lidar”, diz.

Clemildo já o conhecia de outras temporadas, assim como Denise Fraga (“gente finíssima”) e Thiago Lacerda, que até pouco tempo atrás estava em cartaz com Hamlet no Tuca. “Quando Hamlet chegou ao final da temporada, eu organizei um churrasco lá na oficina para todo mundo, atores, diretor, equipe técnica”, conta ele. “Foi muito divertido.”

Há 21 anos trabalhando ali, o carioca chegou ao Tuca com a montagem da ópera Parsifal, de Jorge Takla, que contava com Lídia Brondi e Cassio Gabus Mendes no elenco. O então gerente administrativo, Renato Gaíto, gostou do trabalho de Clemildo e o convidou para trabalhar em regime de CLT no teatro. “Eu era freelancer, passaria a ter carteira assinada e ele ainda iria dobrar o meu ‘capital’. O que mais eu iria querer? Não pensei duas vezes”, relembra.

Autodidata, Clemildo aprendeu o ofício de letrista, serralheiro e marceneiro sozinho. Antes de completar 20 anos, já estava montando fachadas de bailes do clube Flamengo, no Rio de Janeiro. Trabalhou em cenários de diversas peças que passaram pelo Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, e até do extinto programa do Chacrinha. “Comecei como ajudante-geral e depois de um tempo passei a chefe dos ajudantes-gerais.”

Em meio a um trabalho e outro, conheceu também diretores de cinema, como Hector Babenco, que o convidou para fazer parte da equipe técnica de seu filme Brincando nos Campos do Senhor (1991). E, claro, Clemildo não hesitou: passou um bom tempo longe da família para dar apoio às filmagens que aconteceram na fronteira do Pantanal com a Bolívia.

Logo depois foi que surgiu o convite para trabalhar no Tuca. “Foi aqui que sosseguei. Minha vida era uma loucura”, lembra. Mudou-se para Taboão da Serra, onde mora até hoje, com sua mulher Maria Augusta, ao lado de quem viveu por 53 anos. Teve cinco filhos (“alguns por fora”), seis netos e quatro bisnetos. Desde que Maria Augusta morreu, há pouco mais de oito meses, Clemildo sente ainda mais necessidade de trabalhar. Ficar parado significa pensar nela – e sentir saudade. “Depois que eu a perdi, ficar em casa não me faz bem”, desabafa.

Ele já  teve uma “sensação diferente” em casa, sozinho: a impressão de que Maria Augusta estaria o observando. O mesmo sentimento já surgiu quando teve de trabalhar até a madrugada nos bastidores do Tuca. “Ouvi o elevador subir e descer sozinho”, diz, para depois arrematar: “Mas eu não acredito nessas coisas de espírito, não.” Outros colegas, no entanto, já pensaram diferente. Numa tarde abafada, um cenotécnico tinha ido descansar sobre uns colchonetes que estavam no palco. Saiu gritando de lá, jurando que tinha visto o espírito de um antigo reitor da PUC, Dr. Joel Martins, passar pela passarela onde ficam as luzes do teatro. “A gente trabalha sempre com muito barulho aqui. Pra mim, isso tudo é relativo”, dá o seu veredito.

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