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Artistas brasileiros são destaque na Fundação Montresso, polo da arte africana contemporânea

Em Marrakech, o curador Oswaldo Carvalho apresenta "Diáspora do Tambor", exposição que une a força da arte e da cultura afro-brasileira

Por Oswaldo Carvalho, de Marrakech 13 mar 2026, 08h00 •
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Trabalhos de No Martins (Mourad Boulhana/Divulgação)
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  • O bloco Ilú Obá De Min, formado por mulheres negras de São Paulo, arrastou uma pequena multidão em 8 de fevereiro, às vésperas do Carnaval, numa folia inusitada. Estávamos em Marrakech, no lançamento de uma exposição. O cortejo partiu do pátio da Fundação Montresso, importante centro de arte da cidade marroquina, diante de uma escultura em homenagem a Tia Ciata, grande matriarca do samba. Entrou na galeria e se tornou um ritual de bênção de telas, esculturas e instalações. Como dizia o poeta: “Nossa gente é quem bendiz, é quem mais dança, os gringos se afinavam na folia”.

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    Performance do Ilú Obá De Min diante de tríptico de Bonikta (Mourad Boulhana/Divulgação)

    A exposição Diáspora do Tambor, com minha curadoria, reúne criações de oito notáveis artistas contemporâneos da cena internacional inspiradas pelo batuque afro-brasileiro — entre os participantes, três vêm de São Paulo. Uma das atrações da 1-54, maior feira de arte contemporânea africana do mundo, a mostra é resultado do programa IN-Discipline, com o qual a Fundação Montresso apresenta anualmente a cena artística de um país africano ou da diáspora.

    Ao receber o convite para a curadoria, adotei o tambor, símbolo maior da herança afro na nossa cultura, como mote e provocação aos artistas. No período colonial, proibidos de trazer seus instrumentos nos navios negreiros, os africanos recriaram tradições no Brasil, onde os ritmos se fundiram com o batuque dos povos originários e a música europeia. Esses tambores sincretizados resistiram à escravidão, transformando música e festa em armas contra o racismo.

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    Escultura de Mônica Ventura (Mourad Boulhana/Divulgação)
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    Não é de hoje o namoro entre tambores e artes visuais no Brasil. Tarsila do Amaral, Heitor dos Prazeres, Hélio Oiticica e outros bambas deram forma e cor à batucada. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, os artistas escolhidos para Diáspora do Tambor foram instigados a fazer o mesmo, em residência na Fundação Montresso. Um barco metálico concebido por Cássio Markowski, artista guaratinguetaense que vive em Portugal, representou a dor dos 12 milhões de africanos que cruzaram o Atlântico para o trabalho forçado nas Américas. Blackson Afonso, angolano também radicado em Portugal, pintou um tríptico que evoca a sublimação desse trauma. Outras obras da mostra indagam sobre o poder da aglomeração festiva como antídoto para a opressão.

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    Colagem digital de Hebert Amorim (Mourad Boulhana/Divulgação)

    A autora da homenagem a Tia Ciata, padroeira do samba no Rio de Janeiro, é a paulistana Mônica Ventura, que em trabalhos anteriores resgatou a memória de mulheres negras importantes para a história do Brasil, como Acotirene e Dona Afra. Também de São Paulo, No Martins (prestes a inaugurar sua primeira individual no Museu de Arte do Rio) pintou quatro telas inspiradas no marabaixo, manifestação cultural amapaense calcada na percussão afro-brasileira. Hebert Amorim, carioca residente em São Paulo, investigou o tamborzão do funk carioca, e o paraense Bonikta criou um tríptico sobre os tambores afro-amazônicos do carimbó. Diáspora do Tambor traz ainda um vídeo inédito em que a artista cearense biarritzzz resgata ligações históricas entre o norte da África e o nosso sertão. Concebido pelo franco-brasileiro Alexis Peskine, um altar-portal em homenagem a Ogum, orixá que abre os caminhos na mata, aponta novos horizontes para a diáspora, diante das encruzilhadas deixadas pela escravidão.

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    O curador Oswaldo Carvalho (Sabrina Wurm/Divulgação)

    Inhotim africano

    Nos últimos quinze anos, Marrakech ganhou museus como o Al Maaden e o Yves Saint Laurent, instalado no Jardim Majorelle, antigo refúgio do famoso estilista franco-argelino. O Marrocos tem assim se tornado um grande polo de difusão da arte africana para o mundo.

    Conduzida pela diretora artística Estelle Guilié, a Fundação Montresso é um dos principais centros de apoio à criação na cidade. Desde 2009, ocupa um vasto jardim a 20 quilômetros do centro, com três galerias e nove ateliês, além de uma serralheria e uma equipe de quarenta profissionais a serviço dos cerca de 120 artistas que passam por lá anualmente. “Num mundo em que a globalização tende a uniformizar tudo, receber artistas de múltiplos talentos é uma mensagem de esperança”, ensina o fundador da fundação, o colecionador francês Jean-Louis Haguenauer.

    Publicado em VEJA São Paulo de 13 de março de 2026, edição nº 2986.

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