Avatar do usuário logado
Usuário

“O fado pode ser um caminho de libertação”, diz Carminho

A cantora portuguesa Carminho está em turnê com seu novo disco e é tema de documentário que estreia no sábado (17) na Mostra de Cinema de SP

Por Alice Granato 16 out 2026, 08h00 | Atualizado em 16 out 2026, 08h27
Mulher de cabelos escuros e franja, sorrindo, vestindo blazer e gravata creme, contra fundo azul-esverdeado
Carminho (Catarina Ribeiro/Veja SP)
Continua após publicidade
“O fado pode ser um caminho de libertação”, diz Carminho Priorizar nos meus resultados Google

Carminho comemorou seus 42 anos no Brasil, em agosto, com shows de seu álbum mais recente, Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir. A relação da cantora e compositora portuguesa com o Brasil é estreita. Ela cultiva a ponte atlântica há quase duas décadas, vindo todos os anos, e descobriu o país ainda criança, primeiramente através das novelas, como conta nesta entrevista.

A fadista tem parcerias com alguns dos maiores mestres nacionais, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Marisa Monte, que se tornou uma amiga pessoal. Além de ter feito um disco gravando Tom Jobim (1927- 1994). “Vivemos com um oceano de distância, mas falamos a mesma língua. Descobrir novas formas de dizer os mesmos sentimentos me enriqueceu muito”, afirma, sobre a relação com os músicos brasileiros.

“Eles são disponíveis e generosos, fico quase incrédula com essa proximidade (risos).” Muito elegante e antenada, Carminho faz um fado vivo e atrai o público jovem, o que a deixa muito feliz. “O fado não tem idade. Tem, sim, uma expressão, uma característica muito própria. É bonito ver que os jovens vão se identificando”, comemora.

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Como começou sua forte ligação com o Brasil?

Continua após a publicidade

Muito cedo, quando eu, pequenina, na casa dos meus pais, via novelas brasileiras. Fiquei muito fascinada com as músicas. Foi essa a minha primeira ligação com o Brasil e os artistas brasileiros. Depois, essa conexão realmente veio a crescer quando percebi que as canções não estavam relacionadas diretamente com os personagens, e sim com os artistas independentes, que eram o Tom Jobim, o Chico Buarque, o Caetano Veloso, com suas carreiras e discos. Então, eu com 7, 8 anos, comecei a interessar-me pelos álbuns ainda mais e pelas canções, porque, ainda por cima, eram em português e isso fazia-me compreender a história das letras. Mais tarde, e já com essa cultura enraizada na minha escuta musical, tive a oportunidade de conhecer alguns artistas muito especiais e de colaborar com eles. Isso foi realmente muito impactante na minha vida.

Quais os momentos que mais te marcaram desses encontros brasileiros?

É muito difícil destacar apenas uma parceria, porque realmente todas as que fiz foram muito importantes na minha carreira e vida. Mas posso destacar que, no meu segundo disco, o Alma, que foi o primeiro que lancei no Brasil, gravei com Chico Buarque, Milton Nascimento e Nana Caymmi em três faixas extraespeciais: Carolina, Cais e Contrato de Separação. Esse foi um momento realmente inesquecível: estudei com esses artistas e comecei essa relação mais profunda e íntima com os músicos brasileiros. Por outro lado, também não posso esquecer os primeiros artistas que eu conheci, muito antes de começar uma carreira, que foram Martinho da Vila, que me convidou para um concerto dele aqui em Lisboa, e Ney Matogrosso, com quem gravei Pirilampo Mágico (música-tema de uma campanha solidária portuguesa). Esses dois encontros aconteceram antes mesmo de eu lançar o meu primeiro disco. São momentos que eu nunca vou esquecer.

Continua após a publicidade

Como você definiria hoje o seu fado?

Eu sempre vi o fado como uma linguagem, uma ferramenta do pensamento, dos meus sentimentos, da minha expressão mais pessoal. É um gênero musical que abriga muitas maneiras diferentes de se expressar. E como instrumento, acaba por ser, então, um caminho de libertação. Daí eu dizer que ele é uma linguagem viva, que está em constante mutação e movimento. Não o vejo dividido entre um fado antigo e um fado novo. É uma metamorfose que acompanha a própria mudança do tempo e da contemporaneidade. E por isso eu vejo o meu fado hoje como uma expressão contemporânea daquilo que eu sinto, do que eu acredito e também de um conhecimento profundo e de uma pesquisa de sua história.

No seu disco mais recente, Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, você faz uma leitura do amor, propondo caminhos opostos. Explica essa ideia.

Continua após a publicidade

O título é ambíguo e aquilo que eu sinto é que nós, como seres humanos, temos muitas contradições e dúvidas, mais do que certezas. Por isso interessou-me cantar temas que expressassem essa ambiguidade, essa dúvida e que não fossem tão deterministas e definitivos como alguns temas e fados que ouvi ao longo do meu caminho. Procuro os temas com que me identifico, e esse título reflete um bocadinho a ideia de que no fado se morre muito de amor. É um lugar de expressão dos sentimentos, onde existe essa ideia de que se morre de amor, de que se pode expressar essa dor e essa tristeza, mas também a alegria e, ao mesmo tempo, a possibilidade de outros caminhos, de uma força interior que o ser humano tem de poder resistir a certas dores, para poder mudar o caminho de certos destinos. O fado não é um destino que está marcado, mas sim uma página que pode ser escrita por cada um.

O que o público pode esperar do documentário Neste Quarto, sobre sua turnê no Japão, que estreia na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo?

Este documentário nasceu quando o produtor e a (diretora) Ana Rocha de Sousa vieram falar comigo que sabiam da minha turnê pelo Japão e gostariam muito de me acompanhar. Fiquei surpresa e sem saber o que eles queriam encontrar, mas eles disseram: “Nós não sabemos muito bem, mas sabemos que vamos encontrar alguma coisa e queremos muito testemunhar esse momento”. Portanto, eles vieram comigo e acompanharam a prática. Os japoneses têm uma grande sensibilidade e gosto por música de todo o mundo e pelo fado em particular. Foi um encontro muito bonito, sobretudo, de empatia.

Continua após a publicidade

Qual é a nova cena do fado?

Esta é uma língua evolutiva, na medida em que se transforma naquilo que os fadistas contemporâneos decidem cantar e dizer. Vejo muitos jovens construindo repertório, fazendo projetos, gravando discos e querendo se expressar através dessa linguagem tão bonita, com tantos anos. O fado não tem idade. Tem, sim, uma expressão muito própria. Fico muito feliz de ver que continua a ter muitos jovens a se identificar com ele. Portanto, se eu tiver que descrever a cena do fado hoje, é uma cena viva.

Publicado em VEJA São Paulo de 16º de outubro de 2026, edição nº 3017.

Continua após a publicidade

 

 

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Multidão de pessoas em protesto na rua, com prédios ao fundo, e texto UM PAÍS SE FORTALECE COM INFORMAÇÃO. À direita, texto Jornalismo de qualidade para entender o Brasil, o mundo e tomar decisões mais conscientes. veja com várias capas da revista Veja em perspectivaMultidão de pessoas de costas, com braços erguidos, em protesto numa rua urbana com prédios altos e árvores. À direita, várias capas da revista Veja sobrepostas, com manchetes e fotos de pessoas
Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 32,90/mês