A explosão do Carnaval de rua: São Paulo espera 16 milhões de foliões e recorde financeiro
Com 627 blocos e previsão de injetar R$ 3,4 bilhões na economia, a capital paulista consolida sua virada de "cidade vazia" para um dos maiores destinos da folia
O clima de festa vai esquentar. Nas próximas semanas, centenas de cortejos ocupam as ruas da capital paulista, no Carnaval que não para de crescer. A expectativa de público, segundo dados oficiais da prefeitura, é de 16,5 milhões de pessoas. A cidade, que até há pouco tempo via uma debandada de moradores nesta época, terá 627 blocos nos oito dias oficiais de folia (7, 8, 14, 15, 16, 17, 21 e 22 de fevereiro), uma festa que deve injetar 3,4 bilhões de reais na economia local.
A retomada do Carnaval em São Paulo só foi possível graças ao movimento de blocos que lutaram para ocupar as ruas. O Acadêmicos do Baixo Augusta foi um dos protagonistas dessa mudança. Fundado em 2009, começou como “uma festa entre amigos” que se encontravam no Rio para cair na folia.
Com o esvaziamento da cidade no feriado, decidiram fazer a festa no pré-Carnaval, mas enfrentaram resistência do governo municipal e da população. “Nos primeiros anos, queriam deixar a gente desfilar no meio-fio, não fechavam totalmente a rua para carros”, conta Ale Natacci, diretor-geral e cofundador do Baixo Augusta, junto de Alê Youssef.
“Não foi só a dificuldade institucional, havia a necessidade de convencimento da sociedade”, acrescenta Youssef. “A gente acordava às 3 horas da manhã para colocar cone na rua e as pessoas não estacionarem os carros. ”
“Foi uma ruptura”, explica Wilson Simoninha, que comanda a direção musical do bloco desde o início. Para definir a identidade sonora, o carioca estabeleceu um repertório eclético. “São Paulo é a terra da mistura, aqui vale tudo, do axé ao rock. ” Ele relembra momentos marcantes: “Trouxemos a Elza Soares e já cantei com 39 graus de febre. Não tem preço ver as pessoas cantando”.
História
A história do Carnaval de São Paulo começou em 1914, com o Cordão da Barra Funda — depois rebatizado de Camisa Verde e Branco —, mas poucos blocos resistiram, como o Esfarrapado, de 1947, o mais antigo em atividade.
O cenário mudou com o marco legal de 2014, na gestão do então prefeito Fernando Haddad, que reconheceu o Carnaval de rua como patrimônio cultural e criou uma legislação que facilitou o fechamento de ruas, o apoio policial e a limpeza. Em paralelo, foliões criaram outros blocos, encorpando o movimento, como Tarado Ni Você, Ilú Obá De Min, Casa Comigo, Agrada Gregos e Minhoqueens.
“A cidade era muito séria e fechada, não é mais assim. O paulistano se diverte”, afirma a atriz Alessandra Negrini, rainha do Baixo Augusta. “O Carnaval é o tecido da nossa alma. Todo mundo brilha nesta época. ”
A celebração nas ruas favorece o encontro, como descreve o sambista Péricles, convidado especial do bloco neste ano. “Todo mundo é igual, todo mundo se respeita. É democrático. ” Para ele, o Carnaval paulistano “não perde para nenhum outro”.
“Ele é o mais diverso e inclusivo do Brasil”, define Rogério Oliveira, fundador do Coletivo Pipoca — organizador do Bicho Maluco Beleza, de Alceu Valença (PE), do Navio Pirata, do Baiana System (BA), do Monobloco (RJ), e responsável pela estreia do Quintal dos Prettos, uma das maiores rodas de samba do país.
“Criar meu bloco em São Paulo foi muito natural”, diz Pabllo Vittar. A paulistana Gloria Groove faz coro: “Cantar no Carnaval é lembrar por que eu comecei: para celebrar quem a gente é”.
Neste ano a festa ainda ganha o reforço de estreantes como Ivete Sangalo e o DJ escocês Calvin Harris. “A presença de uma artista do porte da Ivete é um reconhecimento desse amadurecimento”, comenta Ana Verroni, CMO da 99, patrocinadora do trio com a cantora baiana. Felipe Cerchiari, diretor de marketing da Skol, conta que o produtor escocês se interessou pela “potência do Carnaval paulistano”.
Em meio à animação, a realidade tem sido outra para organizações menores. Um edital municipal contempla 100 blocos com 25 000 reais cada, valor insuficiente, segundo os organizadores.
A prefeitura diz que é responsabilidade dos blocos se viabilizarem. O modelo de aporte privado é alvo de críticas, pois empresas têm optado por patrocinar a festa como um todo. Neste ano, a gestão Ricardo Nunes (MDB) cortou 12 milhões de reais do orçamento. O Sargento Pimenta não vai desfilar por falta de verba.
Fato é que o Carnaval de rua fez e continuará fazendo parte da história da cidade. O Baixo Augusta, por exemplo, acompanhou diretamente discussões sobre o Minhocão, o Parque Augusta, as ciclofaixas e os teatros da Praça Roosevelt. A folia é um sinal dos tempos e um momento de encontro, diversidade e pertencimento. Motivos para sambar e dançar não vão faltar.
Veja a programação completa dos blocos de Carnaval de São Paulo aqui no site da Vejinha.





