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Tasha & Tracie: “Ou os traumas te dominam ou você os supera”

Da periferia ao centro da cena, as rappers paulistanas consolidam carreira com disco de estreia, turnê e lançamentos a caminho

Por Tomás Novaes
5 mar 2026, 17h43 • Atualizado em 13 mar 2026, 12h41
As gêmeas rappers: dupla poderosa
As gêmeas rappers: dupla poderosa (@stefflima | STEFFANY LIMA/Divulgação)
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  • Quando Tasha & Tracie sonham algo, elas fazem acontecer. Foi assim que chegaram até aqui, com o primeiro disco da carreira em mãos, Serena & Venus (Lado A), de 2025. Rappers, referências da moda e vozes que representam a periferia, não há falsa modéstia com elas. “Somos empresárias, estilistas, formadoras de opinião, arrisco dizer que já temos o nosso impacto cultural registrado”, afirma Tasha. As rimas e os shows são só uma parte do universo criativo da dupla.

    Aos 30 anos, as gêmeas paulistanas sabem muito bem o que querem. “É a primeira vez, em anos, que conseguimos parar. Quando você vem do nada, é muito difícil falar ‘não’ para um trabalho”, diz Tracie. O momento de pausa foi planejado para preparar a nova turnê, prevista para o segundo semestre. Antes, elas lançam um projeto com a Orquestra Novo Traço, gravado no estúdio mineiro Sonastério. A segunda metade do álbum inaugural virá no fim do ano. “O lado B será mais animado”, adiantam.

    Tracie e Tasha, no coração da cidade: fase madura da carreira
    Tracie e Tasha, no coração da cidade: fase madura da carreira (Isabelle India/Divulgação)

    Fãs de artistas como Billie Holiday (1915-1959) e filhas de pai nigeriano — origem do sobrenome sonoro que usam, Okereke —, elas nasceram no Jardim Peri, na Zona Norte. Crescendo entre diferentes bairros da região, não foram anos fáceis. Um dos piores momentos foi a prisão da mãe em Salvador, assunto central na criação do disco. “Isso nos deu traumas e nos formou. No álbum, falamos da solidão da mulher no cárcere. E que muitas vezes elas estão lá por causa de um homem”, conta Tracie.

    A capa é inspirada nas cartas enviadas às filhas. “Foi muito difícil nos tornarmos mulheres longe da nossa mãe. Chegamos até a esquecer um pouco o rosto dela”, relembra a irmã. A narrativa ficcional do trabalho acompanha uma mulher que se apaixona, é enganada e, sozinha, busca o reencontro com a própria essência. “Ou os traumas te dominam ou você os supera. Quisemos passar a ideia de esperança, porque não tínhamos o básico”, continua Tracie.

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    Das próprias memórias, elas pescam passagens difíceis como a falta de acesso a absorventes e até de roupas limpas para ir a entrevistas de emprego. “Quando você vive isso, olha para os lados, faz as contas e não vê uma escapatória”, compartilha Tasha. Qual foi a saída? A arte. Em 2014, lançaram o blog Expensive Shit, em que escreviam sobre moda e outros temas de interesse delas. “Éramos vistas como as ‘doidinhas’. Vários amigos se afastaram por vergonha, fazíamos festas para ninguém. Mas sempre botamos a cara a tapa”, conta Tasha. Com coragem e sempre sonhando alto, chegaram a trabalhar como camelôs antes de se lançarem como rappers, em 2019, com o EP Rouff.

    Capa de 'Serena & Venus (Lado A)': álbum de estreia
    Capa de ‘Serena & Venus (Lado A)’: álbum de estreia (Isabelle India/Divulgação)

    Hoje as gêmeas alcançaram estabilidade. Possuem a própria marca de roupas e estúdio, além de serem embaixadoras da Adidas, desde 2023. “Temos muito pé no chão e escolhemos trilhar um caminho consistente ao invés da pressa em viralizar”, afirma Tasha. “Tivemos muitas ofertas de gravadoras, mas cada vez mais prezamos por independência para o tipo de carreira que queremos”, emenda Tracie.

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    Isto é: com o controle criativo nas próprias mãos, sem concessões. “Fizemos uma escolha. Além de sermos da periferia, amamos a estética periférica. Carregamos isso sempre. Mas as pessoas tentam nos inibir, dizendo que não exala profissionalismo ou que não é moda de verdade”, diz Tasha.

    Pode parecer surpreendente, mas as rappers têm se espelhado em suas versões mais jovens, quando, mesmo em situações adversas, tinham sonhos vívidos e celebravam cada passo. “Estou aprendendo de novo a sentir o gosto das vitórias e a ser mais confiante”, define Tasha. “Estamos no processo de voltar a ser aquelas meninas”, complementa Tracie. Sempre cultivando a fagulha de fazer do dito “impossível” possível. ■

    Publicado em VEJA São Paulo de 6 de março de 2026, edição nº 2985

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