Paulinho Boca de Cantor, aos 80: “A idade chegou, mas não me encontrou”
Vocalista dos Novos Baianos fala sobre juventude, ditadura, novos projetos e o show de aniversário em São Paulo neste mês
“A idade chegou, mas não me encontrou” é a resposta de Paulinho Boca de Cantor, 80, sobre a entrada para a turma dos octogenários, comemorada em 28 de junho. Com a memória afiada e o sorriso aberto, que acompanham o traje habitual com chapéu, óculos escuros e camisa colorida, o tempo parece nem fazer cócegas no vocalista e compositor que “joga o corpo no mundo” desde 1969 com os Novos Baianos e, desde 1979, em carreira solo.
“Os cabelos caíram um pouco, mas a voz continua a mesma, graças a Deus. Ainda canto nos mesmos tons”, afirma o artista, que traz esse vocal precioso a São Paulo para um showfesta de aniversário no dia 21, na Casa Natura Musical, com participações de Zeca Baleiro, Kiko Zambianchi, Curumin, Márcia Castro, Anelis Assumpção e outros amigos.
Como quem mantém acesa a chama da novidade anunciada no próprio nome da banda baiana, formada com Moraes Moreira (1947- 2020), Luiz Galvão (1935-2022), Baby do Brasil e Pepeu Gomes, Paulinho não para quieto. Afinal, 80 anos é um baita motivo para celebrar. Ele prometeu que seguirá comemorando a nova década por 365 dias, até completar 81. “Primeiro fui ver a família espalhada por Rio, São Paulo, Galícia, Barcelona e Estados Unidos. Agora, sigo o rito das ações comemorativas, com o primeiro show em São Paulo — os Novos Baianos passeiam pela terra da garoa há muito tempo, temos uma ligação afetiva muito grande com a cidade”, comenta.
Foi na capital paulista que o grupo gravou o primeiro disco, É Ferro na Boneca (1970), e também onde a trupe morou em outros momentos daquela década.
Em fase fértil de composição, o cantor prepara um próximo disco autoral de inéditas, sucessor de Além da Boca (2021). Parcerias com Durval Lelys e Luiz Caldas estão no projeto. “Não vejo o peso da idade. Estou em um momento muito especial, me sinto muito jovem, com vigor, saúde mental e musical”, diz, animado.
Além das letras inéditas, Paulinho escreve seu primeiro livro, uma coleção de histórias que viveu, “pérolas loucas e soltas”, como define. “A primeira se chama ‘O dia em que os Novos Baianos encontraram o diabo’ — João Gilberto pedia para a gente não contar essa, mas agora posso (risos)”, adianta. Também está em produção uma obra audiovisual que conecta a trajetória de Paulinho ao desenrolar cultural e social do país nas últimas décadas. “Naquele tempo, a gente não imaginava que, com tanta loucura, chegaríamos aos 80. Mas estamos aqui, vivos e fortes”, afirma.
Outra produção documental lançada recentemente dialoga com a vida e a obra do artista. Nem Tudo É Paz e Amor (2025), filme dirigido por seu filho, o músico e cineasta Betão Aguiar, fala sobre a geração de filhos de pais ligados à contracultura e como foi crescer em meio à liberdade dos anos 1960 e 1970. “Nada era proibido, a não ser a caretice e a irresponsabilidade, no sentido de atingir outras pessoas. Fazíamos o mundo andar quinhentos anos em cinco, porque estava careta demais. Éramos sufocados por dogmas que não faziam mais sentido”, conta Paulinho, recordando o período em que a banda morou em comunidade, em especial os anos no sítio Cantinho do Vovô, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
“O trabalho dos Novos Baianos tem essa singularidade. Fomos morar juntos, criamos uma nova família, e as músicas foram inspiradas naquele coletivo. Se é difícil duas pessoas viverem juntas, imagina oito ou dez malucos. Mas a gente conseguiu traduzir os melhores anos das nossas vidas em música”, diz, exaltando a parceria de composição de Moraes e Galvão, que rendeu músicas como Preta Pretinha, A Menina Dança, Vagabundo Não É Fácil, Tinindo Trincando, entre tantas outras.
Antes dos anos curtidos em bando, o apelido digno de bom cantador já acompanhava Paulinho. Como crooner, rompia as madrugadas nos bailes de Salvador e no interior baiano desde o início dos anos 1960, com o conjunto Carlito e Sua Orquestra. “Canto e toco pandeiro desde menino. Não sei quem me ensinou, essas coisas são mágicas”, diz, como quem estava predestinado a eternizar a voz na cultura brasileira, como fez ao gravar hinos como Mistério do Planeta e Swing de Campo Grande (esta composta por ele com Galvão e Moraes), ambas do imbatível disco Acabou Chorare (1972).
Os Novos Baianos se separaram em 1979, mas, apesar de nunca mais terem lançado um disco de estúdio, se reuniram diversas vezes nas décadas seguintes, e seguem em atividade. Em 2025, Paulinho, Baby e Pepeu realizaram a primeira turnê do grupo pelos Estados Unidos.
Em sua trajetória solo de quase cinquenta anos, Paulinho passeou da bossa ao forró, entre projetos autorais e como intérprete, com músicas marcantes como Valeu, Vestido de Prata e O Desafio do Século.
Mais um presente de aniversário: o cantor será condecorado pela Câmara Municipal de Salvador no dia 27 com a Medalha do Mérito Cultural. “São homenagens que geralmente as pessoas ganham depois que morrem. Graças a Deus ainda estou aqui para receber (risos)”, brinca.
Para Paulinho, o segredo da jovialidade está no hábito de sonhar. Ele cultiva muitos desejos para o futuro. “Minha infância foi feliz cantando, então quero que a minha velhice também seja assim”, aponta. Outros sonhos são do tamanho de um país. “Hoje o Brasil parece outro lugar. Chamam de polarização, mas vejo uma certa caretice que nem no passado existia. As pessoas acreditando em mentiras, isso contaminou a sociedade. Mas, assim como uma planta cresce todo dia, o ser humano tem a capacidade de achar uma saída”, manifesta.
Como anunciam versos como “Brasil, esquentai vossos pandeiros”, “Acabou chorare, ficou tudo lindo” ou “Por que não viver neste mundo, se não há outro mundo?”, o cantor continua a semear a ideia de um país harmonioso, feliz e ousado. Esse sonho emana da sua voz, viajando pelos palcos do Brasil. “Nós ajudamos a levantar a autoestima do povo brasileiro com nossas canções e o nosso jeito de encarar a ditadura militar na rua, com roupas coloridas e cabelos grandes ao vento, sem medo.”
Casa Natura Musical. Rua Artur de Azevedo, 2134, Pinheiros. Acess. Sex. (21), 21h. R$ 70,00 a R$ 220,00. sympla.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008





