“Cada ano mais difícil”: a busca do Lollapalooza Brasil por relevância
As apostas nacionais do evento, que acontece neste fim de semana, e as estratégias para continuar atrativo no mercado e para as diferentes gerações
Em uma agenda musical cada vez mais disputada em São Paulo, o já veterano Lollapalooza Brasil acontece nesta sexta-feira (20), sábado (21) e domingo (22), no Autódromo de Interlagos, com um dos line-ups mais quentes e jovens dos últimos anos. Estrelas em alta vão passar pela cidade, que só nos primeiros três meses de 2026 recebeu shows solo de artistas como Bad Bunny, AC/DC, Avenged Sevenfold e My Chemical Romance, em estádios lotados. Em sua 13a edição, como o megafestival navega nesse competitivo mercado de entretenimento ao vivo?
A resposta não é simples, mas tem uma variável fundamental: o momento. “A nossa maneira de construir o line-up não mudou muito ao longo do tempo. O que acontece: depende da safra do ano, os artistas disponíveis. Chame de sorte, timing, como quiser”, afirma Marcelo Beraldo, diretor artístico do evento.
Sorte, e não azar, é um bom termo para definir a escalação deste ano. Segundo pesquisa realizada pela organização, das quinze atrações mais pedidas pelo público de 2025, cinco estão nesta programação: Chappell Roan, Tyler, The Creator, Lorde, Doechii e Sabrina Carpenter — diva pop na crista da onda e o primeiro nome a ser fechado para este ano. Ao todo, serão mais de setenta artistas. A curadoria prioriza a abrangência, mantendo a identidade sonora guiada pelo pop, o rock, o rap e o eletrônico. “A nossa faixa etária principal é de 25 a 34 anos. O público na América Latina é, em média, o sujeito que trabalha e compra o ingresso com o dinheiro dele”, diz Beraldo.
A escalação de 2026 reflete mais o que está acontecendo agora na música mundial, com menos atrações de décadas de carreira, para a plateia de maior idade, como vieram em 2024 e 2025 nomes como Blink-182, Limp Bizkit, Alanis Morissette e Tool. Segundo o diretor artístico, o festival tenta conversar com três gerações, e está de olho na quarta, a alfa — os que nasceram a partir de 2010. “É o nosso futuro fã, e será por muito tempo. Nosso maior desafio é nos manter longevos.”
Quando nasceu, ainda no Jockey Club, em 2012, o Lollapalooza Brasil não tinha concorrência na cidade. Desde então, multiplicaram-se os festivais pequenos e médios e chegaram outros enormes, como o The Town e o Primavera Sound. Como se manter atrativo nesse mar de opções? “Fomos o primeiro grande festival multigênero e multipalco da cidade, com um formato mais contemporâneo. Nos dá certa vantagem ter toda uma rede estruturada”, diz Beraldo, citando o percurso de eventos com line-ups “irmãos”, os Lollapaloozas de Santiago e Buenos Aires e também o Estéreo Picnic, em Bogotá.
Ou seja, o artista pode fechar múltiplas datas e países em uma tacada só. “Mas está ficando mais difícil ano a ano, porque a competição aumenta. Outras regiões passaram a promover shows, como Índia, China e Dubai. E a oferta de talentos que vende ingressos é limitada”, explica. A saída é manter a viabilidade financeira para os grandes nomes. “Todos são difíceis, com suas especificidades e restrições. Tudo é uma novela mexicana até fechar”, revela o curador.
Dentro da programação acontecem “minifestivais”, isto é, sequências de shows em sintonia. É o caso do Palco Budweiser, na sexta-feira (20), que receberá vozes femininas do hip-hop: Doechii, Negra Li e a rapper paulista Stefanie, que toca às 12h45. Com mais de vinte anos de carreira em diferentes grupos, lançou o primeiro disco solo no ano passado, Bunmi (2025). “Foi um renascimento. Ainda mais sendo uma mulher no rap, aos 42 anos”, diz.
Outros nomes nacionais merecem atenção. A banda de pop-rock Foto em Grupo, que toca às 15h50 deste sábado (21) no Palco Samsung Galaxy, não existia até aparecer no cartaz do festival. Mas o quinteto não é desconhecido, os integrantes são Ana Caetano, da dupla Anavitória, Pedro Calais e Zani, do grupo Lagum, e João Ferreira, do Daparte. Prepare-se: vai rolar até bate-cabeça. “É um show muito cru, com trocas de instrumento, piadas, é gostoso tocar assim”, comenta Pedro.
No mesmo dia, às 20h30, Mu540 leva o funk para o Palco Perry’s by Fiat. O DJ paulista está em ascensão com suas batidas e misturas inventivas. “Quero mostrar o poder do ritmo, como os produtores musicais periféricos usam a tecnologia para fazer um som original”, afirma. No domingo (22), às 13h40, no Palco Samsung Galaxy, será a vez de Nina Maia, boa novidade da cena independente. Unindo a canção brasileira com elementos eletrônicos, a cantora mineira leva o álbum Inteira (2024) ao festival. “O que guia as minhas composições é uma procura por si mesma. Tirar as camadas e se encontrar”, define.
O radar da curadoria está aberto para tendências recentes, como o k-pop, representado nesta edição pelo grupo Riize. “Tentamos sempre, mas é um gênero muito difícil nessa questão de agenda”, conta Beraldo. Ele também comenta sobre a onda dos ritmos latinos, como o reggaeton. “Como falamos português, há uma discrepância com Argentina, Chile e Colômbia. Um artista de tamanho intermediário toca para 15 000 pessoas nesses países, mas aqui para 1 300 ou 3 000”, diz, com a ressalva dos astros como Bad Bunny, que consegue mobilizar multidões no Brasil.
Para a organização, o trunfo do line-up deste ano é o conjunto. “O coletivo está mais forte do que os nomes isolados. Quem é fã de música nesse recorte vai gostar de tudo do meio-dia à meia-noite”, promete Beraldo — o show mais aguardado por ele é o da banda de hardcore Turnstile, dona de um dos álbuns mais elogiados de 2025, Never Enough.
Segundo o diretor artístico, a ideia é sempre privilegiar o “festivaleiro”, o fã que frequenta independentemente da programação. Isso entra na estratégia de venda de ingressos. “Estamos criando condições para que essas pessoas consigam o menor preço possível. Se quem compra em cima da hora tiver que pagar mais caro por causa disso, que seja assim”, diz, citando o programa LollaLovers, que estreou nesta edição para clientes do Bradesco, com desconto e condições especiais.
Neste ano, pela primeira vez, a maioria do público vem de fora do estado de São Paulo — 52% do total. Em 2024 e 2025, 240 000 pessoas compareceram ao evento. No desafio de equilibrar experiência, alcance amplo e boa música, o festival segue fazendo barulho, sem perder o frescor da programação. ■
Autódromo de Interlagos. Avenida Senador Teotônio Vilela, 261, Interlagos. Acess. Sex. (20), sáb. (21) e dom. (22), 11h/1h. R$ 597,50 a R$ 5 117,00. 16 anos. ticketmaster.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 20 de março de 2026, edição nº 2987





