“Estranha”, “espontânea” e “ridícula”: um papo com a banda Foto Em Grupo
Formado por integrantes de Anavitória, Lagum e Daparte, o quarteto lançou seu primeiro disco em dezembro e toca no Lollapalooza Brasil 2026
Em tempos em que bandas se tornam cada vez mais raras no meio musical, nasce um quarteto fresquinho, formado por músicos estabelecidos na cena nacional: é o Foto Em Grupo, que reúne Ana Caetano, da dupla Anavitória, Pedro Calais e Zani, da banda Lagum, e João Ferreira, da Daparte.
O projeto foi lançado misteriosamente em agosto, em meio à imensidão de nomes no line-up do Lollapalooza Brasil 2026, que acontece em São Paulo nos dias 20, 21 e 22 de março — os estreantes se apresentam no sábado (21) de festival.
Em setembro, lançaram o primeiro single Toda Esfera, e, em dezembro, o disco completo, homônimo. São onze faixas que passeiam entre o pop, o rock, a canção brasileira e até um pouco de reggae. O projeto foi gravado no estúdio da Gargolândia, no interior de São Paulo, com produção assinada pelos quatro, em parceria com Gabriel Duarte e Matheus Stiirmer.
Despretensão e liberdade criativa são termos importantes para descrever o processo criativo da nova banda, como se percebe nas letras mais abstratas, a exemplo do single. Mas o repertório traz temperos de cada um dos cantores e compositores envolvidos, com destaque para canções sensíveis como Eu Tenho Medo e Navegantes.
Antes do show no megafestival paulistano, o grupo anunciou uma miniturnê por outras cidades, que começou nesta terça-feira (20), no Rio de Janeiro. O grupo ainda passa por Juiz de Fora, no dia 27; Belo Horizonte, no dia 28; e Fortaleza, no dia 29.
“Estranha”, “espontânea” e “ridícula” foram algumas palavras usadas pelos integrantes para descrever a banda e o processo criativo do disco — e que ajudam a entender o espírito desse encontro. Confira o papo com os quatro a seguir.
Como nasceu a ideia dessa banda?
PEDRO A ideia da banda em si nasceu em 2023, quando nos juntamos para compor para os nossos projetos matrizes, mas acabou ficando com uma certa unidade. O João e a Ana vinham de um processo longo de composição juntos, eles estavam bem afiados. Eu e o João tivemos ótimas experiências compondo juntos também. E começamos a fazer coisas incríveis, ficamos muito empolgados, e decidimos: “Isso aqui é para a gente, temos que fazer algo nosso”. Eu e a Ana tínhamos conversado antes em fazer um projeto juntos, eu e o João também.
JOÃO E o Zani teve que vir.
ZANI Fui obrigado (risos).
PEDRO E deu super certo assim, gravamos esse disco enquanto os nossos projetos estavam de férias. Passamos réveillon juntos compondo, passamos as férias gravando. Usamos essas brechas para fazer esse projeto que acabou tomando proporções muito legais.
Outra dúvida básica, sobre o nome. Como vocês chegaram em “Foto Em Grupo”?
JOÃO A Ana foi chapada no museu e viu uma foto com o título “Retrato Em Grupo”. A minha ideia é que a banda chamasse “Flame”. O Zani tinha dado outra ideia que era “Duna”, mas já tinha o filme do Timothée Chalamet.
ANA Tenho uma lista dos possíveis nomes de Foto Em Grupo, e é terrível (risos).
JOÃO “Cardápio Físico” foi uma opção que contemplamos por um tempo.
ANA Teve “Animais Anônimos”, que só não foi por minha causa, tá? Fui uma força de resistência (risos).
JOÃO Não ficamos com nenhum outro nome melhor do que “Retrato Em Grupo” ou “Fotografia Em Grupo”. Rolou alguma resistência, eu não gostava muito, e, no meio da gravação do disco, voltou essa ideia. E alguém soltou “Foto Em Grupo”, assim ficou melhor.
ZANI Comprei o nome pensando em uma foto que você vê e tem aquela memória, tem muito disso na nossa amizade, além do artístico.
O disco tem um pouco de pop, rock, canção brasileira, reggae. O que vocês não exploram tanto nos seus projetos paralelos e queriam trazer para a banda?
ANA Não sei se teve isso de forma consciente. Mas, com cada um colocando um pouquinho do que gosta, chegamos nesse organismo que não caberia em Anavitória, em Lagum ou na Daparte. Nunca fiz um reggae na Anavitória, sabe? No nosso show tem até um momento de bate-cabeça — e eu nem sei bater cabeça (risos).
JOÃO A Ana é baixista em algumas músicas, todo mundo toca um pouco de tudo. Essa junção transformou nosso som em uma terceira coisa, que não existia antes em nossas vidas. Depois que a gente percebeu que estava ficando diferente, apostamos ainda mais nisso. Mas no início chegamos organicamente nessa coisa estranha.
PEDRO E não só nos fonogramas. A gente nunca faria nos nossos outros projetos um show sem pensar em cenografia, em VS (sigla para Virtual Sound, uso de sons eletrônicos ao vivo), em click (metrônomo para a banda acompanhar o andamento no palco). É um show muito cru, é gostoso tocar assim, trocar de instrumento, fazer piada. Estamos brincando com uma inversão de papéis, o João canta Universo de Coisas Que Eu Desconheço, que é uma música da Anavitória com a Lagum. O Zani nem canta na Lagum e está cantando aqui algumas músicas.
Uma pergunta para a Ana: essa dinâmica de banda é muito diferente do Anavitória?
ANA É muito diferente. No Anavitória somos eu e a Vitória, e, quando a gente chega para um ensaio, a banda está pronta. Aqui é outro processo, está sendo muito rico, estou aprendendo e me divertindo muito. Tem uma coisa da Ana mais nova que sonhava em fazer parte de uma banda, e que estou realizando aqui. Estou entendendo melhor os processos de construção de um show, porque no Anavitória eu pulo algumas etapas, tem coisas acontecendo em paralelo que eu nem vejo. Aqui não, estou vendo o passo a passo. Estou gostando muito. E conviver com três homens o tempo inteiro é enlouquecedor, mas é bom também (risos).
Vocês acreditam que existe uma força simbólica em, neste momento tão tecnológico e individualista do mundo, vocês se reunirem em banda?
JOÃO Essa ideia de ser orgânico veio da diversão que é fazer isso no palco. Não ter tantas amarras.
ZANI A despretensão faz muito parte disso aqui, a diversão também. É muito mais legal sentar e ficar tirando músicas, decidir quem vai tocar o que, isso que nos move como banda. Estamos todos de férias aqui, entre aspas.
ANA Fale por você (risos).
ZANI Esse lance está muito envolvido na energia da banda, a despretensão. A gente não fez a parada querendo ir na contramão ou representar algo. É muito natural mesmo.
Quero perguntar sobre as letras também. Algumas trazem sentimentos muito pessoais, específicos e bem detalhados, o maior exemplo é Eu Tenho Medo. Como é escrever algo tão íntimo e ver as palavras reverberarem nas pessoas?
ANA Para mim essa é sempre a melhor parte, observar como as outras pessoas vão interpretando as coisas que a gente escreveu dentro de um lugar super íntimo. Normalmente as pessoas interpretam de maneira completamente diferente da que a gente escreveu. E isso é rico, grande, as coisas vão tomando outros tamanhos, as músicas começam a caber em cenários totalmente diferentes. Acho muito gostoso isso. Essa música eu tenho um carinho especial, é a minha favorita do disco em questão de letra.
Nos shows, vocês terão músicos de apoio, além de vocês quatro? E o que podemos esperar para o show no Lollapalooza?
JOÃO Chamamos o Pedro Lacerda para tocar bateria. Fora isso somos nós quatro aqui estragando o arranjo (risos).
ZANI O grande lance é a gente se divertir, e esse lance das trocas também. A Ana toca um baixo imenso, maior que ela.
ANA Eu nunca tinha tocado um baixo na minha vida, e agora toco. Ou seja, sou baixista por três músicas (risos).
PEDRO Estamos fazendo essa turnê pré-Lollapalooza para, além de darmos uma circulada, aprendermos a nos comportar no palco. Sempre fui um frontman, há 10 anos faço a mesma coisa, nunca empunhei um instrumento por tanto tempo. Cada um aqui também está tendo os seus momentos de aprendizado e novidade. Vamos chegar no festival com uma casca. Não vai ser um show completamente diferente, mas talvez a gente traga um músico a mais. Pretendemos chegar lá com tudo azeitadíssimo.
Quero saber de cada um, qual a melhor parte de estar nessa banda?
ANA Acho que observar a espontaneidade dos meninos. É um negócio que eu fico bem invejosa, embasbacada e meio apaixonada. Acho muito legal, dá vontade de ser mais assim, é muito divertido. Eu dou risada o ensaio inteiro, tem uma coisa de se levar pouco a sério mesmo, que os três têm. Convivendo com eles quero pegar isso cada vez mais para mim.
ZANI A minha parte preferida é o Pedro anunciando cada um no show. Essa é a minha parte preferida do Foto Em Grupo.
JOÃO Venho de uma banda underground, que faz shows de vez em quando e tudo mais. Então, para mim, a melhor parte é ser pago devidamente para fazer música.
ANA Quanto você recebeu até agora?
JOÃO Nada (risos). Mas existe uma promessa, uma perspectiva, algo que uma banda underground nem sempre tem.
PEDRO Para mim a parte mais divertida é me apaixonar novamente pelo processo. Quando fazer música se torna um trabalho, isso pode ser doloroso. Em tantos anos de carreira eu adquiri algumas feridas de criar expectativa com um resultado e não chegar lá, ou então passar mais horas do que deveria analisando números. Claro que é muito prazeroso, é o melhor trabalho do mundo, mas é um trabalho. Não tem como ser só a arte pela arte, têm pessoas que dependem do resultado, outras expectativas, um escritório. Trabalhar com Foto Em Grupo me traz para o lado da diversão, a criação pode ser espontânea e ridícula. Sei que quando voltar para a Lagum, vou olhar para a música dessa forma, e vou ter curado um pedaço.





