Evandro Mesquita e os anos 80: “Negar a importância da Blitz é escroto”
A banda carioca faz show no festival C6 no Rock, em São Paulo, que reúne a geração pioneira do rock nacional em shows de discos marcantes na íntegra
Um novo festival de música nasce neste sábado (22) e domingo (23) em São Paulo. É o C6 no Rock, segundo fruto da parceria entre o C6 Bank e a Dueto Produções, responsáveis pelo C6 Fest. O evento vai reunir anualmente artistas nacionais, com temas diferentes a cada edição, começando com uma celebração roqueira dos anos 1980.
O diferencial são os shows inéditos: oito atrações vão tocar discos marcantes na íntegra. No primeiro dia, Plebe Rude leva O Concreto Já Rachou (1986); Paulo Ricardo canta Rádio Pirata Ao Vivo (1986); Os Paralamas do Sucesso tocam Selvagem? (1986); e os Titãs revisitam Cabeça Dinossauro (1986).
Na tarde seguinte, Ira! toca Vivendo e Não Aprendendo (1986); Blitz leva As Aventuras da Blitz (1982); Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocam Dois (1986), da Legião Urbana; e Marina Lima resgata Fullgás (1984). Tributos a Rita Lee (1947-2023) e Cazuza (1958-1990) fecham cada dia.
Essa escalação fará barulho no Parque Ibirapuera, com bate-papos e feira de vinis. Os shows rolam na área externa do Auditório.
Entrevista com Evandro Mesquita
O que esperar do show no C6 no Rock?
Vamos revisitar na íntegra esse primeiro disco. Com ele arrombamos portas que estavam fechadas nas gravadoras, rádios e TV. Conquistamos disco de ouro, platina e diamante. Era a efervescência do underground.
Quais eram as referências da banda?
As histórias em quadrinhos, os poetas marginais… Foi uma salada de frutas nessa receita sonora com arte. Colocamos as backing vocals na frente, com diálogos nas músicas. Todo esse universo furou a ditadura, com um papo para a nossa geração. E tivemos duas faixas censuradas.
Como era um dia livre de Evandro Mesquita nos anos 70?
Acordar no Leblon e ir pela praia até o Arpoador, era muito bom. Eu ia cantando, fazendo música. Íamos até Santos fazer tatuagem. No primeiro disco eu brincava: “Vocês ouvirão um som que abalará toda uma geração”, mas pensava que ia cantar para aquelas trinta pessoas da praia. E acabou sendo uma profecia.
E como aproveita um dia de lazer hoje?
Continuo indo à praia. Adoro dar um mergulho. O futebol era minha cachaça, depois fui para o futevôlei, mas comecei a sentir o joelho. Hoje descobri o futegolfe. E adoro ficar em casa. Estou escrevendo um roteiro sobre a história da Blitz com o LG Bayão.
Quais são os próximos planos da Blitz?
Gravamos cinco discos na pandemia. Tem dois para sair, o Blitz Hits, com releituras dos sucessos, e outro com músicas do lado B.
Vocês sentiam que, pela veia pop da banda, não eram levados tão a sério?
O discurso da Blitz era quase o mesmo, mas não tão óbvio. O Cazuza é o maior poeta da minha geração, e acho que a Blitz está nesse nível. Não é porque você não diz “abaixo a ditadura!” que não é contra o sistema. As conquistas da Blitz foram importantes, foi um pé na porta fundamental. E não viemos todos de preto, viemos coloridos como a nossa música, a nossa praia, o vento no nosso coqueiro. Nosso papel foi muito forte, negar isso é escroto.
Com o estouro da Blitz nos anos 80, como manteve os pés no chão?
Era um sonho. Viajar com a minha banda, tocar em estádio, o Rock in Rio. Tudo isso gerou uma usina de energia que nos alimentava. Mas, depois, a primeira formação caiu em armadilhas de egos e ciúmes, o que fechou um ciclo que podia continuar muito mais.
Parece que você não envelhece. É verdade?
O meu joelho não diz o mesmo (risos). É sobre trabalhar com prazer e seguir algumas orientações. Meu pai era vegetariano, fazia judô, ioga, nos obrigava a comer arroz integral. Sempre tivemos uma vida ligada à natureza. Cursei educação física, não me formei, mas ganhava meia bolsa jogando bola. Estou com as minhas dores aqui, mas, enquanto houver bambu, tem flecha. ■
Parque Ibirapuera. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº. Acess. Sáb. (22) e dom. (23), 13h. R$ 360,00 a R$ 648,00. 16 anos. eventim.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 21 de agosto de 2026, edição nº 3010





