A boneca inflável como modelo de beleza
Zélia teve uma infância comum. Amigos, escola, viagens com a família. Sua única dificuldade sempre foi uma insegurança em relação à beleza. Sempre houve quem se interessasse em namorar com ela. Nos relacionamentos, tentava a todo custo esconder do parceiro aquilo que considerava suas imperfeições físicas. Uma pequena assimetria entre os olhos, o contorno dos joelhos, […]
Zélia teve uma infância comum. Amigos, escola, viagens com a família. Sua única dificuldade sempre foi uma insegurança em relação à beleza. Sempre houve quem se interessasse em namorar com ela. Nos relacionamentos, tentava a todo custo esconder do parceiro aquilo que considerava suas imperfeições físicas. Uma pequena assimetria entre os olhos, o contorno dos joelhos, o dedão do pé rechonchudo, uma pequena marca de nascença perto da orelha, o nariz sutilmente proeminente.
Quando saía para um jantar romântico, fazia algumas acrobacias para manter a melhor visão possível para o namorado e mesmo para as demais pessoas presentes. Levava em conta a iluminação, a região de maior fluxo de pessoas, a aparência de cada uma. Sim, porque, se tivesse que expor alguma imperfeição, então que não fosse para uma mulher que ela considerasse mais bonita que ela própria. Às vezes, era até melhor nem sair de casa.
+ Homens adeptos das cantadas na rua não têm convicção de masculinidade
Com tanta regra e gasto de energia, Zélia não conseguia ser ela própria nem tampouco interagir de verdade com os namorados. E foram muitos. De alguns, ela fugiu ao perceber que seria inevitável expor suas imperfeições. Outros, fugiram eles próprios por não darem conta de ouvir tantas queixas dela a respeito de sua aparência. Zélia não relaxava.
Um dia Zélia viu a propaganda de uma clínica de cirurgia plástica. Mulheres bonitas e um discurso sobre o impacto da plástica na autoestima. O próprio cirurgião era o garoto-propaganda. Encontrou a solução. Bastariam algumas pequenas intervenções. Então, se decidiu. Mas, depois da primeira consulta, ela se deu conta de que não tinha o dinheiro para as correções que queria. Mas estava tão decidida a resolver seu “problema” que traçou um objetivo de grandes economias para juntar o dinheiro necessário.
Sua irmã percebeu o quanto Zélia estava sofrendo com toda a situação e também percebeu que a solução não seria plástica, já que Zélia é bonita por natureza. Pediu, então, que ao menos consultasse um cirurgião plástico mais experiente para uma segunda opinião. Depois de muita insistência da irmã, Zélia marcou uma avaliação com o segundo cirurgião plástico.
+ “Livros” de colorir não são terapia (e nem livros)
Ela se deparou com uma clínica bonita mas muito mais simples que a do primeiro cirurgião. Não havia fotos de mulheres bonitas na recepção, por exemplo. O médico, ele próprio, não lhe pareceu tão empolgado em propor intervenções quanto o primeiro. Depois de ouvir as queixas da moça e de examiná-la, o cirurgião disse que o problema com o qual ela deveria lidar não dependia de cirurgia plástica e lhe indicou um psiquiatra e um psicólogo.
Zélia deixou a clínica irritada e ofendida por ter recebido um encaminhamento para a psiquiatria. Desabafou com a irmã e teceu inúmeras críticas ao médico e à clínica. “Você acha que vou dar ouvidos a um médico que usa filtro de barro na recepção?”. Assim, retomou seu plano de juntar dinheiro para fazer as cirurgias plásticas que corrigiriam seus defeitos.
Não ouvia mais ninguém. Para acelerar o plano, cancelou a viagem de férias que faria para conhecer a Grécia… e cancelou as próprias férias também. Transferiu sua graduação para uma faculdade mais barata e mais algumas outras coisas.
Depois de cinco anos juntando dinheiro, fez suas primeiras cirurgias. Nariz e orelhas. Os resultados, embora a tenham deixado satisfeita, não foram suficientes para acabar com sua insegurança. Decidiu, então, que teria de fazer mais intervenções. Não custa nada, só algum dinheiro, pensava ela. Um novo ciclo de economia de dinheiro começou. Mais férias canceladas. Zélia tinha uma máxima que aprendeu com seu cirurgião plástico: “Autoestima é tudo e sem um corpo perfeito não tem autoestima que resista. Então corpo é tudo!”.
Nesse ritmo, Zélia realizou sucessivos ciclos economia-cirurgia. Depois de fazer todas os procedimentos em relação aos defeitos iniciais que via, chegou à conclusão de que estava equivocada. Não porque os problemas seriam de outra natureza mas simplesmente porque avaliou ter encontrado as imperfeições erradas. Seriam outras, na verdade. Assim, mais ciclos de cirurgias começaram. A cada novo ciclo, uma ideia nova para alcançar a perfeição do corpo.
+ Convidado Em Terapia: a cultura do álcool
Como enfrentou também implantes (peitos, nádegas, coxas…), começou a ter de fazer a manutenção de tempos em tempos. Enfrentou cinco infecções pós-cirúrgicas e três rejeições. Analgésicos e anti-inflamatórios passaram a ser companhia diária. E boa parte dos anos passava se recuperando de cirurgias. Mas sabia que valeria a pena. Ela queria alcançar o corpo perfeito para transformar sua baixa autoestima.
Toda esta preocupação com o corpo e a aparência tomaram muita energia de Zélia. Embora fosse insegura quanto à sua beleza, as pessoas a viam como alguém arrogante. Dedicava cada vez menos tempo a aproveitar os amigos e a família. Mas para ela o que lhe permitiria sentir-se melhor era lidar com suas imperfeições físicas. Às vezes disfarçava sua insegurança. Dizia para as pessoas que se sentia bem mas por que não melhorar o que já é bom? Quanto mais bonito, melhor.
E assim seguiu buscando o copo perfeito, aquele que pudesse ser considerado uma unanimidade. Depois de trinta anos nesta busca incessante e já com algumas dívidas, Zélia, agora cinquentona, tinha a pele de uma garota de 25 anos… e talvez a cabeça também, pelo pouco que experimentou do mundo. Embora sua pele e sua silhueta estivessem perfeitamente delineadas, perdeu parte de sua identidade, parte de sua humanidade. Ficou cada vez mais parecida com uma boneca inflável. Sua mente, também voltada de forma restrita para as preocupações com o corpo, soava algo superficial e artificial.
Zélia finalmente passou por duas fortes experiências que lhe ajudaram a ver de outra forma sua história. A primeira delas, uma reunião de família. Um de seus sobrinhos, um garotinho de 9 anos que não encontrou a tia nos últimos três, disse em voz alta assim que a viu: “Olha como a tia tá feia, mãe!”. A verdade foi posta com a crueza da sinceridade infantil.
+ O que é virgem? A hora certa de falar sobre sexo com os filhos
Essa situação teve um impacto enorme sobre Zélia. De nada valeu todo o esforço, entendeu. Deu-se conta, a partir daquela verdade dita pela criança, de que ela abriu mão de seus sonhos por um projeto (beleza) que nunca lhe trouxe bem-estar e realização. Depois de muito refletir e de sonhar com a fala do sobrinho, decidiu que retomaria seus sonhos antigos. Começaria realizando o desejo de conhecer a Grécia.
No dia da viagem, porém, a febre que Zélia vinha sentindo desde o dia anterior a impediu de embarcar. Internada, descobriu-se um novo foco infeccioso em função das muitas plásticas a que se submeteu. Com os problemas no fígado e nos rins gerados por anos de medicamentos inadequados, o organismo de Zélia já não respondeu tão bem ao tratamento. A infecção se generalizou.
Numa noite qualquer, sozinha na UTI e com um guia turístico da Grécia na mão, Zélia deixa a vida. Morre com o organismo agredido, a alma dilacerada… mas com uma pele de seda, que será devidamente apreciada por quem visitar seu velório. Para você, desejo boas viagens.









