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Movida Paulistana

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Ex-secretário de Cultura de São Paulo e à frente de projetos de impacto sociocultural, como o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, a recém-aberta Formosa Hi-Fi e o saudoso Studio SP, Alê Youssef construiu uma consistente carreira na área cultural. Em Movida Paulistana, às quintas-feiras, ele vai abordar as correntes vanguardistas com seu olhar atento para o que há de mais inspirador

Quem foram os Cardeais do Samba que lutaram pelo carnaval de SP

Madrinha Eunice, Inocêncio Tobias, Pé Rachado do Vai Vai, Seu Nenê da Vila Matilde e Carlão do Peruche eram vanguardistas da cultura popular

Por Alê Youssef
12 fev 2026, 08h00 •
estátua madrinha eunice lavapés
Estátua de Madrinha Eunice, uma das pioneiras da Lavapés e uma dos Cardeais do Samba (Rovena Rosa/Agência Brasil/Divulgação)
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  • Às vésperas de mais um espetáculo das Escolas de Samba no Sambódromo do Anhembi, é fundamental lembrar a história de cinco personagens que foram decisivos para que o carnaval paulistano deixasse de ser apenas tolerado e passasse a ser reconhecido como política pública de cultura.

    Hoje, quando milhares de pessoas ocupam as arquibancadas do Sambódromo e acompanham desfiles tecnicamente sofisticados, é fácil esquecer que houve um tempo em que as escolas desfilavam com infraestrutura precária, sem apoio institucional e sob forte estigma social. Até meados da década de 1960, o carnaval de São Paulo era visto como manifestação marginal, alvo de enorme preconceito e criminalização

    Foi nesse contexto que emergiu o grupo que ficaria conhecido como os Cardeais do Samba. Mais do que lideranças comunitárias, eram verdadeiros vanguardistas da cultura popular e lideres dos chamados Quilombos do Samba: Madrinha Eunice da Lavapés – de quem tive a honra de fazer uma estátua na minha época de Secretário de Cultura- Inocêncio Tobias da Camisa Verde e Branco, Pé Rachado do Vai Vai, Seu Nenê da Vila Matilde e Carlão do Peruche.

    O marco histórico ocorreu em 1967. Em plena ditadura militar, esses dirigentes — acompanhados por Seu Mala, do Acadêmicos do Tatuapé — procuraram o então prefeito Faria Lima para reivindicar reconhecimento oficial e melhores condições para os desfiles. A iniciativa representou um gesto político relevante: levar ao gabinete municipal a pauta da mais importante manifestação cultural  negra da cidade, em um período de restrições democráticas.

    O resultado foi decisivo. A partir daquela articulação, o carnaval passou a integrar formalmente a agenda da cidade. Os desfiles ganharam regulamento, apoio financeiro e estrutura. A Avenida São João – onde aconteciam os desfiles na época – tornou-se palco organizado, com arquibancadas e critérios de julgamento definidos. O que antes era improviso começou a se consolidar como evento estruturado.

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    Essa profissionalização alterou profundamente o lugar do samba na cidade. Ao garantir infraestrutura, os Cardeais asseguraram continuidade histórica às escolas e fortaleceram sua dimensão cultural e econômica. O reconhecimento institucional não eliminou as tensões, mas criou condições para um crescimento sustentável.

    Entre os cinco, Carlão do Peruche foi o último remanescente do grupo original, falecendo em fevereiro de 2025, aos 94 anos. Fundador da Unidos do Peruche em 1956, manteve-se até o fim como defensor do samba de raiz e da memória das escolas.

    Morreu em São Paulo nesta segunda (17) Seu Carlão do Peruche
    Morreu em São Paulo nesta segunda (17) Seu Carlão do Peruche (Instagram/Reprodução)
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    Resgatar essa trajetória às vésperas dos desfiles no Anhembi é reconhecer que o espetáculo contemporâneo resulta de uma luta  cultural iniciada décadas atrás. O carnaval paulistano não se estruturou por acaso. Ele foi institucionalizado por lideranças que compreenderam que cultura popular também exige orçamento, planejamento e reconhecimento formal.

    Os Cardeais do Samba transformaram o carnaval em política pública antes mesmo desse conceito se consolidar no vocabulário da gestão cultural. Ao fazê-lo, redefiniram o papel do samba na construção da identidade de São Paulo.

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