Quem foram os Cardeais do Samba que lutaram pelo carnaval de SP
Madrinha Eunice, Inocêncio Tobias, Pé Rachado do Vai Vai, Seu Nenê da Vila Matilde e Carlão do Peruche eram vanguardistas da cultura popular
Às vésperas de mais um espetáculo das Escolas de Samba no Sambódromo do Anhembi, é fundamental lembrar a história de cinco personagens que foram decisivos para que o carnaval paulistano deixasse de ser apenas tolerado e passasse a ser reconhecido como política pública de cultura.
Hoje, quando milhares de pessoas ocupam as arquibancadas do Sambódromo e acompanham desfiles tecnicamente sofisticados, é fácil esquecer que houve um tempo em que as escolas desfilavam com infraestrutura precária, sem apoio institucional e sob forte estigma social. Até meados da década de 1960, o carnaval de São Paulo era visto como manifestação marginal, alvo de enorme preconceito e criminalização
Foi nesse contexto que emergiu o grupo que ficaria conhecido como os Cardeais do Samba. Mais do que lideranças comunitárias, eram verdadeiros vanguardistas da cultura popular e lideres dos chamados Quilombos do Samba: Madrinha Eunice da Lavapés – de quem tive a honra de fazer uma estátua na minha época de Secretário de Cultura- Inocêncio Tobias da Camisa Verde e Branco, Pé Rachado do Vai Vai, Seu Nenê da Vila Matilde e Carlão do Peruche.
O marco histórico ocorreu em 1967. Em plena ditadura militar, esses dirigentes — acompanhados por Seu Mala, do Acadêmicos do Tatuapé — procuraram o então prefeito Faria Lima para reivindicar reconhecimento oficial e melhores condições para os desfiles. A iniciativa representou um gesto político relevante: levar ao gabinete municipal a pauta da mais importante manifestação cultural negra da cidade, em um período de restrições democráticas.
O resultado foi decisivo. A partir daquela articulação, o carnaval passou a integrar formalmente a agenda da cidade. Os desfiles ganharam regulamento, apoio financeiro e estrutura. A Avenida São João – onde aconteciam os desfiles na época – tornou-se palco organizado, com arquibancadas e critérios de julgamento definidos. O que antes era improviso começou a se consolidar como evento estruturado.
Essa profissionalização alterou profundamente o lugar do samba na cidade. Ao garantir infraestrutura, os Cardeais asseguraram continuidade histórica às escolas e fortaleceram sua dimensão cultural e econômica. O reconhecimento institucional não eliminou as tensões, mas criou condições para um crescimento sustentável.
Entre os cinco, Carlão do Peruche foi o último remanescente do grupo original, falecendo em fevereiro de 2025, aos 94 anos. Fundador da Unidos do Peruche em 1956, manteve-se até o fim como defensor do samba de raiz e da memória das escolas.
Resgatar essa trajetória às vésperas dos desfiles no Anhembi é reconhecer que o espetáculo contemporâneo resulta de uma luta cultural iniciada décadas atrás. O carnaval paulistano não se estruturou por acaso. Ele foi institucionalizado por lideranças que compreenderam que cultura popular também exige orçamento, planejamento e reconhecimento formal.
Os Cardeais do Samba transformaram o carnaval em política pública antes mesmo desse conceito se consolidar no vocabulário da gestão cultural. Ao fazê-lo, redefiniram o papel do samba na construção da identidade de São Paulo.





