O Skate desliza pela “onda dura” de São Paulo
Mais um campeonato mundial na cidade nos lembra que a relação visceral entre metrópole e skate, não é apenas esportiva, é cultural
Em poucas cidades do mundo o skate se confunde tanto com a paisagem urbana quanto em São Paulo. A capital paulista, que hoje conta com cerca de 170 pistas públicas espalhadas por seus bairros, construiu ao longo das últimas décadas uma relação profunda com essa cultura, feita de conflito, resistência, inovação e, finalmente, reconhecimento.
Neste momento em que recebemos novamente um dos maiores eventos da modalidade — os Mundiais de Skate Park e Street, no Parque Cândido Portinari, valendo pontos para a classificação rumo aos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028 — vale lembrar que essa história nem sempre foi assim e o caminho até aqui foi longo.
Nos anos 1980, o skate era perseguido pelas autoridades públicas. Em um gesto bizarro, o então prefeito Jânio Quadros chegou a proibir a prática do esporte. A repressão, porém, não eliminou o movimento, pelo contrário, ajudou a fortalecê-lo.
São Paulo se tornou um laboratório urbano para essa cultura justamente porque os skatistas desafiaram os obstáculos institucionais com a mesma habilidade que superaram obstáculos urbanos. A Marquise do Ibirapuera – recém reformada depois de anos fechada – virou território lendário frequentado pelos pioneiros conhecidos como Ibiraboys.
A Praça Roosevelt e o Vale do Anhangabaú se consolidaram como pontos de encontro e experimentação. Escadas, corrimãos, bancos e desníveis urbanos transformaram-se em pistas improvisadas. Foi – e ainda é – o street skate em sua forma mais pura: a cidade como pista.
Essa relação visceral entre metrópole e skate nunca foi apenas esportiva — é cultural. Em contraponto ao lifestyle do surfista e da onda do mar, tão presente em cidades litorâneas, São Paulo inventou sua própria versão: a onda dura do concreto, termo cravado pelo livro “A Onda Dura” que conta a história de três décadas de skate no Brasil, escrito por César Gyrao, Cecília Mãe, Cesinha Chaves, Fábio Bolota, Marcos ET Cunha, e Guto Jimenez, nomes conhecidos no skate brasileiro.
A resistência do esporte na cidade foi intensa e contou com atuação decisiva de parlamentares eleitos com a força do voto da juventude skatista. A virada de mentalidade institucional começou no início dos anos 2000, na gestão da prefeita Marta Suplicy.
A criação da Coordenadoria da Juventude — uma espécie de secretaria especial, que tive o prazer de dirigir no inicio da minha trajetória profissional — representou um marco para a aceitação pública do esporte. O poder público decidiu reconhecer essa cultura que já existia com tanta energia.
Em parceria com a Confederação Brasileira de Skate, liderada à época por Alexandre Vianna, foram construídas então 64 pistas de skate públicas em diferentes regiões da cidade. Muitas delas ocuparam espaços nos CEU’s – Centros Educacionais Unificados da Prefeitura, que acabavam de ser criados.
Naquele momento surgiu também o Circuito Municipal de Skate Amador, coordenado pelo skatista Marcio Tanabe. Metade da seleção Olímpica de Tóquio saiu desse circuito, sendo que Kelvin Hoefler, Pamela Rosa e Leticia Bufoni já declararam em entrevistas que aprenderam a competir ali. As iniciativas ajudaram a consolidar uma base de praticantes e abriram caminho para a expansão que vemos hoje.
Antes disso, alguns eventos pontuais foram importantes. Desde os anos 1980, grandes nomes internacionais desembarcam na cidade. Foi uma emoção, por exemplo, assistir no Projeto SP na Barra Funda em 1988, a apresentação dos ícones Tony Hawk e Lance Mountain ao som da banda da punk rock Inocentes.
Nos últimos anos, o skate virou indústria bilionária e esporte olímpico e essas histórias de resistência ficam cada vez mais distantes. Hoje, São Paulo combina sua tradição de rua com a capacidade de receber grandes eventos, mas não pode esquecer das gerações de jovens que decidiram transformar a cidade em pista.





