Editoras independentes são guardiãs das vanguardas da cidade
Sem esforço editorial, histórias importantes correm o risco de se diluir na velocidade da timeline
Em seu último aniversário, São Paulo ganhou um presente à altura de sua maravilhosa cultura alternativa. O relançamento de O Som de São Paulo 1967–1985 (Terreno Estranho, 192 págs., R$ 95,00), de Fabiana Caso, com ilustrações de Talita Hoffmann, recoloca em circulação uma cartografia sonora que conta uma boa parte da história da música na cidade.
O livro percorre da psicodelia ao tropicalismo, da MPB ao glam, do punk ao pós-punk, da no wave à vanguarda paulistana. Não como linha evolutiva organizada, mas como sobreposição de camadas. Entre 1967 e 1985, a cidade viveu explosões estéticas que dialogavam com o mundo, mas eram filtradas pelo concreto, pela garoa, pela tensão política e pela pulsação operária da metrópole.
Nas páginas estão nomes como Os Mutantes, Rogério Duprat, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Rony Von, Kid Vinil, Clemente Nascimento, As Mercenárias e Itamar Assumpção. O recorte não é apenas musical, é urbano. O livro também revive espaços como o Madame Satã e o Lira Paulistana, e mapeia lojas de discos como a Baratos Afins – que resiste até hoje.
A pesquisa – que cruza listas de discos, resenhas, entrevistas, imprensa alternativa e memória oral – faz emergir como ponto central, o papel das editoras independentes. A Terreno Estranho – gerida pelo casal Daniela Gomes Maia Paes e Nilson Paes, e que conta com a colaboração do grande jornalista musical Fabio Massari, evidencia uma vocação que o mercado tradicional muitas vezes não sustenta. Livros desse tipo, não nascem de planilhas, mas de convicção cultural. São gestos de preservação de cenas e sensibilidades.
Num tempo de hiperconexão, em que tudo parece disponível a um clique, paradoxalmente perdemos contexto. A avalanche de informação tende a soterrar a experiência orgânica das cenas — os encontros físicos, as redes improvisadas, os riscos assumidos. As editoras independentes funcionam como guardiãs dessas camadas subterrâneas. Publicar memória cultural no Brasil é um ato de resistência econômica e simbólica.
E é impossível não desejar que esse movimento cresça e que outros momentos das vanguardas paulistanas também sejam retratados em futuros títulos dessas casas aguerridas. Sem esse esforço editorial, histórias importantes correm o risco de se diluir na velocidade da timeline. Com ele, tornam-se documento, referência, ferramenta crítica. Que venham novos volumes, novas cartografias, novos mergulhos.
Um salve para Boitempo, 34, Pallas, Primavera, Ubu, Patuá e tantas outras editoras. Aplausos para o trabalho da LIBRE – Liga Brasileira de Editoras, associação guerreira que defende muito o terreno das independentes.
A memória em São Paulo, não é contemplação, é disputa de narrativa e afirmação de pertencimento. E, sobretudo, é matéria-prima para as próximas vanguardas que, silenciosamente, já estão nascendo pelas ruas cinzentas — e vibrantes — desta cidade.





