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Movida Paulistana

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Ex-secretário de Cultura de São Paulo e à frente de projetos de impacto sociocultural, como o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, a recém-aberta Formosa Hi-Fi e o saudoso Studio SP, Alê Youssef construiu uma consistente carreira na área cultural. Em Movida Paulistana, às quintas-feiras, ele vai abordar as correntes vanguardistas com seu olhar atento para o que há de mais inspirador

Dionisio Barbosa, o fundador do carnaval paulistano

Homenagem ao criador do carnaval de rua de São Paulo é reparação histórica e alerta para que erros do passado não se repitam

Por Alê Youssef
29 jan 2026, 08h00 •
Dionísio Barbosa, fundador do carnaval de rua de São Paulo
Dionísio Barbosa, fundador do carnaval de rua de São Paulo (USP Imagens/Reprodução)
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  • Está chegando mais um carnaval e pouca gente que hoje atravessa a cidade atrás de um trio elétrico sabe que o primeiro bloco carnavalesco paulistano nasceu em 1914, na Barra Funda, pelas mãos de um homem negro chamado Dionísio Barbosa.

    Ao criar a Banda da Barra Funda, antes mesmo do tradicionalismo Cordão da Bola Preta do Rio de Janeiro, Dionísio inaugurou um carnaval urbano, comunitário, profundamente conectado à experiência negra paulistana e à vida real da cidade.

    Dionísio ajudou também a consolidar o samba em São Paulo, especialmente a partir da experiência cotidiana do Largo da Banana  — onde hoje é o Viaduto Pacaembu e o Memorial da América Latina –  em frente à antiga estação de trem da Barra Funda, ponto de encontro de carregadores, ferroviários, músicos e sambistas, que se reuniam após o trabalho para tocar, cantar e socializar.

    É uma história estrutural: sem Dionísio, sem a Banda da Barra Funda, sem o Largo da Banana, simplesmente não existiria carnaval em São Paulo. O problema é que, com o passar do tempo, essa tradição foi sendo coberta por camadas de esquecimento, preconceito e pouca atenção institucional. O carnaval de rua foi interrompido, domesticado, esvaziado, e seus pioneiros, deixados à margem da própria história que ajudaram a criar.

    Quando a festa começou a ser retomada com força, no início dos anos 2000, o que estava em jogo era a reconstrução de uma memória interrompida. A cidade voltou a cantar, a dançar, a ocupar o espaço público. Blocos surgiram através das comunidades e das turmas de amigos, novas gerações se misturaram às antigas, e São Paulo redescobriu — com alegria — que também sabia brincar carnaval na rua. Foi um processo bonito, coletivo, cheio de imperfeições, mas profundamente ligado ao desejo de pertencimento e de vida urbana.

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    Agora, quase vinte anos depois dessa retomada, chegamos a um novo ponto de atenção. O carnaval de rua paulistano é grande, potente, relevante econômica e culturalmente. E exatamente por isso que corre o risco de se afastar de suas origens e se render a um modelo excessivamente comercial, padronizado, pouco atento à história dos blocos e personagens que efetivamente construíram esse processo. Um carnaval que cresce sem memória vira apenas produto e perde seu sentido de patrimônio histórico imaterial da cidade.

    É nesse momento que a memória de Dionísio Barbosa precisa ser valorizada — não apenas como reparação, mas como um alerta para que erros do passado não se repitam. Sua trajetória lembra que o carnaval nasce de território, de comunidade, de resistência cultural. Ressignificar e visibilizar a trajetória da Banda da Barra Funda e do samba do Largo da Banana é respeitar as tradições e olhar para frente com consciência.

    Homenagear Dionísio é um compromisso com a história viva do carnaval de rua paulistano, porque uma cidade que não reconhece e valoriza suas tradições culturais corre sempre o risco de perder o próprio rumo — mesmo quando a música ainda está tocando e os trios estão arrastando multidões.

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