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Movida Paulistana

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Ex-secretário de Cultura de São Paulo e à frente de projetos de impacto sociocultural, como o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, a recém-aberta Formosa Hi-Fi e o saudoso Studio SP, Alê Youssef construiu uma consistente carreira na área cultural. Em Movida Paulistana, às quintas-feiras, ele vai abordar as correntes vanguardistas com seu olhar atento para o que há de mais inspirador

Carnaval de rua é ação cultural que disputa o sentido da cidade

Os blocos criam, ainda que temporariamente, uma contra-hegemonia urbana: desafiam a lógica da cidade cinza pensada apenas para os negócios e automóveis.

Por Alê Youssef
5 fev 2026, 08h00 • Atualizado em 5 fev 2026, 08h19
Acadêmicos do Baixo Augusta no desfile de 2018:
Acadêmicos do Baixo Augusta, tradicional bloco de rua paulistano (@academicosdobaixoaugusta/Reprodução)
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  • O carnaval de rua paulistano não surgiu como produto turístico nem como política de eventos: ele é fruto de ação cultural continuada, construída por coletivos, comunidades, músicos, produtores e trabalhadores da cultura que decidiram disputar o uso do espaço público e o sentido da cidade.

    Em sua obra “Ação Cultural para a Liberdade”, o grande educador Paulo Freire, afirma que ação cultural é intervenção no mundo — uma prática que pode servir à domesticação ou à emancipação. O carnaval de rua de São Paulo, desde sua retomada, escolheu o caminho da liberdade: ocupar, misturar, produzir pertencimento, transformar ruas em lugares de encontro. 

    A cultura é um dos principais campos de disputa da hegemonia. Os blocos na rua criam, ainda que temporariamente, uma contra-hegemonia urbana: suspendem hierarquias, deslocam centralidades, desafiam a lógica da cidade cinza pensada apenas para o fluxo econômico e para o automóvel. Eles confirmam, na prática, que a cidade é um bem comum.

    O problema começa quando os blocos passam a ser tratados como entraves operacionais ou prestadores ocasionais de serviço, e não como agentes culturais estruturantes. Burocracias excessivas, mudanças de regras em cima da hora, dificuldades crescentes de patrocínio e a prioridade para outros formatos e estruturas acabam por esvaziar processos coletivos construídos ao longo de anos. 

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    Apenas ampliar oferta não significa necessariamente democratizar cultura. Sem reconhecer os modos de produção e apropriação simbólica, o que se faz é apenas gestão de público. A ação cultural não é produto nem espetáculo isolado, mas um conjunto de condições para que a cultura aconteça. Sem isso, o carnaval de rua vira vitrine. Com isso, ele vira cidade.

    Os blocos de São Paulo não existem apenas para “animar a cidade”. Assim como em outros grandes centros carnavalescos, eles existem porque havia uma cidade carente de rua, de ritual e de convivência. São processos vivos, que formam pessoas, criam redes afetivas e econômicas e educam para a vida urbana. Uma cidade é feita dos diferente usos que sua população cria para ela — e o bloco é um uso legítimo e insurgente . 

    Respeitar os blocos de São Paulo, portanto, não é apenas garantir o desfile. É respeitar o processo que se iniciou quase 20 anos atrás, com o que foi chamado de retomada do carnaval de rua de São Paulo, depois do apagamento histórico dos blocos pioneiros e seus personagens entre as das décadas de 1910 e 1950. 

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    A metrópole cultural, plural, criativa e contemporânea que São Paulo é,  depende da valorização das tradições culturais que a colocaram  nesse patamar. Os blocos de carnaval como nos ensina o antropólogo Roberto DaMatta na obra “Carnavais, Malandros e Heróis”, são rituais fundamentais que expressam e reafirmam a continuidade da cultura e da própria cidade.

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