‘O Beijo da Mulher-Aranha’: a mágica do cinema em um musical de arrepiar
Nova versão da obra, que inspirou clássico brasileiro, revive Hollywood antiga com Jennifer Lopez e alcança o que ‘Emilia Perez’ (2024) sonhava em fazer
O cinema é capaz de despertar emoções adormecidas e tocar o espectador de maneira inexplicável. O Beijo da Mulher-Aranha, de Bill Condon, exerce essa capacidade com grandiosidade.
Esta resenha foi muito ponderada, uma vez que há na equação da análise o clássico brasileiro homônimo. A obra original do escritor argentino Manuel Puig, de 1976, foi adaptada para o cinema por Hector Babenco, em 1985, e depois virou musical na Broadway, em 1993.
A nova versão honra cada passo nesse trajeto, ao mesmo tempo que é uma leitura totalmente independente. A obra de Babenco segue sendo extraordinária, com a atuação enigmática de Sonia Braga e a discussão sobre o regime militar na Argentina, e o longa norte-americano reafirma esse enaltecimento, muitas vezes de modo metalinguístico.
A atenção aqui se volta a um sentimento universal, que se resume àquele frio na barriga de assistir a um bom filme e escapar da realidade por alguns instantes. É uma celebração ao cinema, à música e ao amor, a partir de uma história nascida na América Latina — o que Emilia Perez (2024) sonhou em fazer, diga-se de passagem.
Há mudanças relevantes em comparação ao musical, como a retirada de canções na prisão e o destaque maior às fantasias de Luis Molina (Tonatiuh) — ótimas decisões do diretor.
Com o pano de fundo da ditadura argentina nos anos 1980, o ex-decorador de vitrines é condenado por atentado ao pudor e encontra como parceiro de cela o preso político Valentín Arregui (Diego Luna). Eles criam uma forte conexão, enquanto Molina conta seu filme favorito ao colega.
Trata-se de um drama em technicolor, protagonizado pela atriz Ingrid Luna (Jennifer Lopez), sobre a história de uma mulher que se apaixona, mas descobre uma maldição. A história anda paralelamente ao eixo narrativo dos dois penitenciários, que tentam sair da prisão e sobreviver à violência brutal do regime.
Quando as linhas se fundem, surge a mágica do cinema. A relação entre real e ficção é bem executada pela trilha sonora excelente, a fotografia que alterna entre proporções de tela e a direção de arte que evoca o glamour dos tempos de ouro de Hollywood.
O elenco merece aplausos por captar cada nuance necessária e entregar grandes números musicais. Jennifer Lopez encontra um papel que é a epítome de seu trabalho e Tonatiuh se mostra uma verdadeira revelação.
O final é de arrepiar. Uma pena não ter pegado fôlego de campanha para premiações, pois teria potencial.
NOTA: ★★★★★
Publicado em VEJA São Paulo de 16 de janeiro de 2025, edição nº 2978





