Indicado ao Oscar, ‘Kokuho’ exalta tradição japonesa secular com esmero
Filme japonês retrata arte do teatro kabuki, em que homens interpretam gueixas, e concorre em maquiagem ao prêmio
É perceptível como cada etapa de produção de Kokuho – O Preço da Perfeição foi meticulosamente pensada. A fotografia com simetrias e significados, a coreografia dos atores e a trilha sonora delicada formam o palco perfeito para a tradição secular do kabuki, forma de teatro japonesa marcada por maquiagens elaboradas, figurinos extravagantes, música e atuação estilizada.
O filme de Lee Sang-il reproduz muito bem espetáculos emblemáticos, ao enquadrar perfeitamente o palco, colocar o público na plateia e dar o tempo necessário para o desdobrar de cada cena. Tamanha dedicação à caracterização conquistou uma indicação na categoria de maquiagem e cabelo no Oscar deste ano.
O kabuki foi criado em 1603 pela sacerdotisa Izumo no Okuni em Quioto. O sucesso da mistura entre dança, teatralidade e provocação foi imediato, mas o xogunato Tokugawa, que comandava o país, viu com maus olhos o movimento e as mulheres foram proibidas de atuar. Homens assumiram os papéis femininos, na figura de onnagata, ator especializado em interpretar mulheres com rigor.
Séculos depois, chegamos a esta história, ambientada em 1964, em Nagasaki, e centrada em Kikuo (Ryô Yoshizawa), um jovem órfão que, com a morte do pai, líder de uma gangue da máfia Yakuza, é acolhido pelo ator famoso de kabuki Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe). O filho biológico do artista, Shusuke (Ryûsei Yokohama), é incentivado a também aprender a tradição e evolui na arte junto de Kikuo.
A bela coreografia do elenco, sempre muito sincronizado e treinado, é impressionante e hipnotizante. Só um dos dois será escolhido para assumir o posto de sucessor do mestre e lidar com as consequências de se tornar o grande nome do Japão.
A disciplina — palavra-chave aqui — e a determinação são diferenciais de Kikuo, mas rivalidades e escândalos aguardam-nos para chacoalhar seus caminhos. A partir de uma premissa de aparente delicadeza da arte, a narrativa ganha contornos épicos à medida que a situação escala e evidencia falhas e erros sob as aparências.
O longa faz uma síntese autoconsciente do país, que tem gerado tanto interesse a ponto de se tornar a maior bilheteria de um filme japonês em live-action e já figurar entre as dez produções mais assistidas na história do Japão.
É de uma beleza tremenda o trabalho de exaltação da tradição, pouco conhecida fora da Ásia e que merece atenção, pela irreverência como são trabalhados símbolos fundamentais, como a gueixa e a cerejeira, e reflexões sobre a vida.
NOTA: ★★★★☆
Publicado em VEJA São Paulo de 6 de março de 2026, edição nº 2985





