‘A Graça’ disseca figura de presidente em crise de identidade
Premiado em Veneza, Toni Servillo interpreta chefe de estado que precisa decidir sobre lei da eutanásia em filme de Paolo Sorrentino
Em Parthenope (2024), o diretor italiano Paolo Sorrentino trouxe charme e sensualidade para sua filmografia, marcada pelo interesse em destrinchar camadas de uma figura central para fazer uma reflexão sobre a sociedade. Em A Graça, ele perfila uma personalidade sem o mesmo apelo sexual, mas complexa por outros motivos.
Mariano de Santis (interpretado por Toni Servillo) é um presidente italiano fictício no fim de seu mandato. Seis meses antes de deixar o cargo, ele passa por uma crise de identidade, muito atrelada a decisões importantes que podem impactar como será lembrado: assinar ou não o projeto de lei da eutanásia. Ele também deve dar a um veredito sobre a concessão de um indulto a uma mulher que matou o marido abusivo enquanto ele dormia e a um homem que matou a esposa com demência.
Para ajudar a chegar a uma conclusão, tem ao lado o guarda pessoal Labaro (Orlando Cinque), a melhor amiga e confidente Coco Valori (Milvia Marigliano) e a filha jurista, Dorotea (Anna Ferzetti). No entanto, no final, cabe a ele superar dilemas pessoais e decidir.
Além de se questionar se está velho e sobre como as outras pessoas o veem, enfrenta o luto deixado pela partida da esposa, que morreu há 8 anos. Sente-se inútil sem ela e, ao mesmo tempo, tem o ego ferido por uma traição da antiga companheira e desconfia que o amante está por perto.
Servillo contempla muito bem as nuances do personagem. Ele não precisa dizer nada para comunicar as dores de Mariano, principalmente as relacionadas à esposa — o roteiro se excede quando o faz dizer o que já está claro. Não por acaso, o ator italiano ganhou a Copa Volpi de melhor ator no Festival Internacional de Cinema de Veneza no ano passado. Vale dizer que o prêmio foi entregue pelas mãos de Fernanda Torres, que fez parte do júri da 82ª edição.
Tanto personagens principais quanto secundários têm personalidades marcantes, graças a arquétipos facilmente reconhecíveis. Como de praxe, o cineasta cria uma alegoria para uma análise sobre o tempo, a contemporaneidade e a fragilidade de um homem em situação de poder e responsabilidade.
Por vezes, perde apenas o faro para arrematar questionamentos importantes, cortando momentos interessantes e prolongando outros. O filme recompensa o tempo gasto com um humor sarcástico e uma tensão crescente.
NOTA: ★★★☆☆
Publicado em VEJA São Paulo de 20 de março de 2026, edição nº 2987





