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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

Por que todo mundo está falando de chablis?

O branco da Borgonha tornou-se nos últimos anos um dos vinhos franceses mais comentados e vendidos do Brasil

Por Marcelo Copello 7 ago 2026, 06h00
Taça de vinho branco com líquido dourado sobre uma superfície de madeira clara, com reflexos de luz
Chablis: em alta (Magnific/Divulgação)
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Se você frequenta restaurantes de frutos do mar ou presta atenção nas prateleiras das boas adegas, já deve ter notado: chablis está em todo lugar. O branco da Borgonha — que por décadas era escolha de entendidos — tornou-se nos últimos anos um dos vinhos franceses mais comentados e mais vendidos do Brasil, senão o mais.

Os números dessa virada são surpreendentes: entre 2024 e 2025, as importações de chablis cresceram 56% em volume e 62% em valor, saltando de 2,9 para 4,7 milhões de dólares em apenas um ano segundo dados da Ideal BI Consulting.

Analistas já falam em efeito chablis — esse branco foi um dos principais responsáveis pelo salto de 10% na entrada de rótulos franceses no país, e a appellation representa hoje um quarto das garrafas vindas da França para o Brasil.

Chablis é uma região no extremo norte da Borgonha, a 186 quilômetros de Paris, onde se produz exclusivamente brancos da uva chardonnay — mas não qualquer chardonnay.

A combinação de clima frio, solos calcários de 150 milhões de anos repletos de fósseis marinhos e a tradição de quase não usar carvalho resulta num branco radicalmente diferente do que o mercado estava acostumado.

Enquanto as versões do Novo Mundo chegavam amanteigadas, com baunilha e presença de madeira, o chablis original traz outra linguagem: limão, toranja, flores brancas e aquela sensação de pedra molhada frequentemente descrita como mineralidade.

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Uma acidez que corta o paladar com precisão. É um vinho de terroir perceptível — você sente o lugar na taça. O Brasil sempre foi país de tintos, com mais de 70% das preferências voltadas a esse tipo de vinhos, mesmo num país tropical onde o frescor seria aliado natural.

Mas isso está mudando: a participação dos brancos importados subiu de 18% em 2021 para 24% em 2024, incremento de 12 milhões de garrafas por ano. Em alta nos restaurantes de frutos do  mar de São Paulo e do Rio, a garrafa de branco, antes esquecida na adega, hoje virou protagonista.

Chablis tem quatro níveis, todos encontrados no Brasil: o petit chablis, mais leve e acessível; o chablis, mineral e expressivo; o chablis premier cru, proveniente de vinhedos como Montée de Tonnerre e Fourchaume; e o chablis grand cru, de sete vinhedos históricos capazes de produzir vinhos que envelhecem por décadas.

A pandemia teve papel inesperado nessa história: com as viagens suspensas, o consumidor que comprava vinhos na Europa passou a explorar mais intensamente o mercado local, e as importadoras apostaram em rótulos de boa relação custo-benefício com nome reconhecível.

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Outro fator importante foi a mudança no perfil do consumidor. As mulheres representam hoje 53% do mercado de vinhos em 2024, seis pontos a mais que em 2019, e o estilo de Chablis — fresco, elegante, sem exageros — dialoga com quem quer desfrutar de prazer sem peso.

Produtores como Raveneau e Dauvissat são referências obrigatórias. O sucesso de Chablis não é obra do acaso. Num mercado acostumado a valorizar potência, ele mostra que elegância, frescor e precisão também conquistam consumidores.

Duas garrafas de vinho branco em fundo branco. À esquerda, Petit Chablis Ropiteau 2022 com lacre escuro. À direita, Chablis Antoine Janson 2024 com lacre dourado
Ropiteau Frères Petit Chablis 2022 e Antoine Janson Chablis 2024: da esquerda para direita (Divulgação/Divulgação)

Ropiteau Frères Petit Chablis 2022

Da tradicional Ropiteau Frères, casa borgonhesa de 1848, 100% chardonnay, com de quatro a cinco meses sobre as borras finas em inox. Cor palha com reflexos esverdeados. No nariz, cítricos e tangerina, flores brancas e um toque de pedra molhada. Paladar leve, com boa acidez e bom frescor, 12,5% de álcool. R$ 219,90, na Wine.

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Antoine Janson Chablis 2024

AOC da casa Antoine Janson, 100% chardonnay, com seis meses apenas em inox. Cor amarelopalha claro. Aroma fresco, com notas de maçã verde, pera, pêssego e um floral de jasmim e flor de laranjeira, com uma nota de mineralidade. Paladar fresco, 12,5% de álcool, com final seco e levemente salino. R$ 419,90, na Evino.

Publicado em VEJA São Paulo de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007.

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