A versatilidade da syrah e a dupla poda
Conheça mais sobre a uva que nasceu na região francesa do Rhône, e consquitou um lugar de destaque entre os vinhedos do Brasil
Poucas uvas viajam tão bem quanto a syrah. Nasceu na região francesa do Rhône, virou shiraz na Austrália, ganhou pimenta no Chile e frescor na Nova Zelândia. Achou casa também na Argentina e na África do Sul. Vai bem no frio e no calor, na encosta e na planície. Seu capítulo mais surpreendente, porém, foi escrito num lugar improvável: o inverno brasileiro.
A videira é planta de hábitos peculiares. Brota na primavera, amadurece no verão, entrega a uva antes do outono. Foi assim na Borgonha, no Douro, em Mendoza. No Brasil tropical, esse calendário tem um defeito de fábrica: a colheita cai em janeiro e fevereiro, em plena estação das chuvas e do calor. Uva encharcada pode se tornar sinônimos de podridão à espreita e de vinho diluído.
A solução veio de Minas Gerais, com a assinatura de Murillo Regina, da Epamig, e completa 25 anos em 2026: a dupla poda, também chamada de poda invertida. A técnica engana a planta. Poda-se duas vezes ao ano e sacrifica- -se a safra de verão para que a uva amadureça entre junho e agosto, no auge da estação seca. Os cachos do verão são descartados ainda verdes para virem mais robustos na colheita de inverno.
A comparação explica o entusiasmo. No verão úmido, a videira enfrenta chuva na maturação, noites quentes e fungos. No Cerrado e nas montanhas, o inverno traz dias de sol, noites frias e quase nenhuma chuva. A uva amadurece devagar, concentra açúcar e polifenóis sem perder acidez.
O produtor ainda ganha o luxo de escolher a data da colheita, privilégio raro por aqui. E nenhuma casta se deu tão bem com a técnica como a syrah. Ela pede sol para amadurecer a casca e noites frescas para guardar a acidez e aquele perfume de pimenta e violeta, exatamente o que o inverno seco oferece.
A comprovação veio na 11ª edição da Grande Prova Vinhos do Brasil, realizada em março deste ano. A uva tinta superou pela primeira vez em número de amostras as campeãs históricas cabernet sauvignon e merlot. Os dois vinhos campeões, empatados com 93 pontos e Duplo Ouro, são filhos da dupla poda: o Poker Syrah 2023, da Casa Correa & Medici, de Minas Gerais, e o Seu Claudino Superiore 2023, da Villa Triacca, no Distrito Federal. Sim, Brasília faz vinho de excelência.
Nada disso aposenta o ciclo tradicional. A Serra Gaúcha e a Campanha seguem produzindo espumantes e tintos de primeira qualidade pelo calendário clássico. A poda invertida veio somar, abrindo o mapa do vinho para Minas, São Paulo, Goiás e o Planalto Central, regiões que até ontem pareciam impossíveis para o cultivo de uvas finas.
Há 25 anos, a dupla poda era um experimento de pesquisadores na cidade mineira de Caldas. Hoje, está em dezenas de vinícolas, e a técnica move a fronteira mais instigante do vinho nacional. A syrah, que já se deu bem em tantos terroirs mundo afora, confirmou mais recentemente no Cerrado aquilo que a define: é capaz de aprender até um relógio novo. Do Rhône ao Distrito Federal, poucas uvas trocam de endereço com tanta naturalidade.
Atardecer de Los Andes Syrah
Da vinícola Fecovita, syrah 100% da região de Mendoza, na Argentina, sem safra declarada (mistura de safras), sem madeira, com 13% de álcool. Cor rubi violácea. Aroma de frutas negras e especiarias. Paladar de leve a médio corpo, acidez moderada, taninos prontos. R$ 79,90, na Evino.
Cruz Limited Edition Andes Syrah 2024
Da vinícola Pérez Cruz, feito com 100% syrah em Maipo Andes, no Chile, com catorze meses em barricas de carvalho francês de primeiro e segundo usos. Rubi escuro. Aromas frutado, com especiarias, tabaco, pimenta-do-reino. Paladar de bom corpo, com 13,8% de álcool e taninos macios. R$ 129,29, na Wine.
Publicado em VEJA São Paulo de 09 de outubro de 2026, edição nº 3016.
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