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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

A versatilidade da syrah e a dupla poda

Conheça mais sobre a uva que nasceu na região francesa do Rhône, e consquitou um lugar de destaque entre os vinhedos do Brasil

Por Marcelo Copello 9 out 2026, 08h00
Cacho de uvas escuras, quase pretas, pendurado em uma parreira, com folhas verdes embaçadas ao fundo e pontos de luz refletindo nas bagas
Versatilidade da syrah e a dupla poda (Wikimedia Commons/Divulgação)
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Poucas uvas viajam tão bem quanto a syrah. Nasceu na região francesa do Rhône, virou shiraz na Austrália, ganhou pimenta no Chile e frescor na Nova Zelândia. Achou casa também na Argentina e na África do Sul. Vai bem no frio e no calor, na encosta e na planície. Seu capítulo mais surpreendente, porém, foi escrito num lugar improvável: o inverno brasileiro.

A videira é planta de hábitos peculiares. Brota na primavera, amadurece no verão, entrega a uva antes do outono. Foi assim na Borgonha, no Douro, em Mendoza. No Brasil tropical, esse calendário tem um defeito de fábrica: a colheita cai em janeiro e fevereiro, em plena estação das chuvas e do calor. Uva encharcada pode se tornar sinônimos de podridão à espreita e de vinho diluído.

A solução veio de Minas Gerais, com a assinatura de Murillo Regina, da Epamig, e completa 25 anos em 2026: a dupla poda, também chamada de poda invertida. A técnica engana a planta. Poda-se duas vezes ao ano e sacrifica- -se a safra de verão para que a uva amadureça entre junho e agosto, no auge da estação seca. Os cachos do verão são descartados ainda verdes para virem mais robustos na colheita de inverno.

A comparação explica o entusiasmo. No verão úmido, a videira enfrenta chuva na maturação, noites quentes e fungos. No Cerrado e nas montanhas, o inverno traz dias de sol, noites frias e quase nenhuma chuva. A uva amadurece devagar, concentra açúcar e polifenóis sem perder acidez.

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O produtor ainda ganha o luxo de escolher a data da colheita, privilégio raro por aqui. E nenhuma casta se deu tão bem com a técnica como a syrah. Ela pede sol para amadurecer a casca e noites frescas para guardar a acidez e aquele perfume de pimenta e violeta, exatamente o que o inverno seco oferece.

A comprovação veio na 11ª edição da Grande Prova Vinhos do Brasil, realizada em março deste ano. A uva tinta superou pela primeira vez em número de amostras as campeãs históricas cabernet sauvignon e merlot. Os dois vinhos campeões, empatados com 93 pontos e Duplo Ouro, são filhos da dupla poda: o Poker Syrah 2023, da Casa Correa & Medici, de Minas Gerais, e o Seu Claudino Superiore 2023, da Villa Triacca, no Distrito Federal. Sim, Brasília faz vinho de excelência.

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Nada disso aposenta o ciclo tradicional. A Serra Gaúcha e a Campanha seguem produzindo espumantes e tintos de primeira qualidade pelo calendário clássico. A poda invertida veio somar, abrindo o mapa do vinho para Minas, São Paulo, Goiás e o Planalto Central, regiões que até ontem pareciam impossíveis para o cultivo de uvas finas.

Há 25 anos, a dupla poda era um experimento de pesquisadores na cidade mineira de Caldas. Hoje, está em dezenas de vinícolas, e a técnica move a fronteira mais instigante do vinho nacional. A syrah, que já se deu bem em tantos terroirs mundo afora, confirmou mais recentemente no Cerrado aquilo que a define: é capaz de aprender até um relógio novo. Do Rhône ao Distrito Federal, poucas uvas trocam de endereço com tanta naturalidade.

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Duas garrafas de vinho tinto em fundo branco. À esquerda, Atardecer de Los Andes Syrah com rótulo branco e montanhas. À direita, Perez Cruz Limited Edition Syrah 2014 com rótulo creme e verde, e selo dourado 93 no gargalo
Syrah: sugestões de vinhos (Reprodução/Divulgação)

Atardecer de Los Andes Syrah

Da vinícola Fecovita, syrah 100% da região de Mendoza, na Argentina, sem safra declarada (mistura de safras), sem madeira, com 13% de álcool. Cor rubi violácea. Aroma de frutas negras e especiarias. Paladar de leve a médio corpo, acidez moderada, taninos prontos. R$ 79,90, na Evino.

Cruz Limited Edition Andes Syrah 2024

Da vinícola Pérez Cruz, feito com 100% syrah em Maipo Andes, no Chile, com catorze meses em barricas de carvalho francês de primeiro e segundo usos. Rubi escuro. Aromas frutado, com especiarias, tabaco, pimenta-do-reino. Paladar de bom corpo, com 13,8% de álcool e taninos macios. R$ 129,29, na Wine.

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Publicado em VEJA São Paulo de 09 de outubro de 2026, edição nº 3016.

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