Conheça as muitas faces da pinot grigio
Da França à Itália, a uva conquistou consumidores e hoje se tornou o novo fenômeno de público
Ela está na moda, e com razão. Há alguns anos, a pinot grigio era matéria-prima de só mais um branco na gôndola; hoje, aparece na taça da mesa ao lado, no rótulo que o amigo recomenda, na carta do restaurante que antes só oferecia chardonnay e sauvignon blanc. Virou tema de conversa. E quando um vinho vira conversa, vale conhecer de onde ele vem.
A história começa na França, com outro nome: pinot gris. É uma mutação da pinot noir, a grande tinta da Borgonha. A casca fica num tom acinzentado, quase rosado, e desse cinza nasceu o “gris”. Ao cruzar os Alpes e se instalar na Itália, foi rebatizada de “grigio”. Um só fruto, dois nomes e, como se verá, muitas faces.
Na Alsácia, no nordeste francês, ela mostra sua versão mais grandiosa. O pinot gris alsaciano é encorpado e perfumado, de mel, damasco e fruta madura, por vezes em versão doce para sobremesa. Os melhores envelhecem com nobreza por uma década ou mais e pedem prato à altura: uma ave assada, um foie gras, um queijo de pasta mole. É potente, é vinho de guarda.
No Friuli, no extremo nordeste italiano, a uva ganha outra seriedade. Ali ela tem textura, profundidade e, às vezes, a cor alaranjada, obtida na maceração com as cascas. São vinhos de garfo e faca, que também agradecem alguns anos de garrafa. Quem só conhece o pinot grigio leve costuma se espantar.
Porque a fama mundial veio de outro canto: o Vêneto. Foi ali que nasceu o estilo que conquistou o planeta. Pálido, fresco, quase neutro, com um toque de açúcar residual que arredonda as arestas, ele é fácil, facílimo de beber. Agrada de primeira a quem não quer complicação e gosta de algo extremamente leve e macio. É o branco que cabe em qualquer ocasião e em quase qualquer bolso, e foi assim que virou um fenômeno, dos EUA ao Japão.
Os críticos torcem o nariz. Acham-no simples, diluído, e não estão de todo errados. Mas perdem o ponto: é justamente por ser fácil que o pinot grigio do Vêneto, ou no “estilo vêneto”, abriu a porta do vinho para milhões de iniciantes. Encanta o consumidor exatamente onde o especialista bufa.
E o sucesso multiplica vinhedos. A uva avança pelo mundo, da Califórnia à Austrália, e o Brasil já entrou na dança: temos pinot grigio nacional, da Serra Gaúcha à Campanha, alguns de qualidade, provando que a moda também fala português.
Volto ao começo. Poucas uvas trocam de rosto como esta: pode ser o branco displicente da varanda ou o tinto branco sério da adega. A graça da pinot grigio é caber nos dois lugares e deixar que você escolha de qual lado da mesa quer sentar.
Tralcetto Terre d’Abruzzo Pinot Grigio 2024
Da Cantina Zaccagnini, de Abruzzo-Itália. 100% pinot grigio, sem madeira. Cor amarelo-palha claro, com reflexos esverdeados. Aroma com notas de maçã verde, pera, flores brancas, cítricos e amêndoa. Paladar seco, leve e fresco com 12,5% de álcool. Servir gelado (8-10º C), ideal para aperitivo ou pratos leves. R$ 129,29 na Wine.
Musti Nobilis Pinot Grigio delle Venezie Doc
Da Vini de Angeli, nasce no Vêneto, berço do estilo que conquistou o mundo pela leveza. Sem madeira, traz cor amarelo-palha e aromas de maçã verde e cítricos. Na boca, é o retrato da uva em sua versão mais fácil: fresco, de acidez equilibrada e 12% de álcool. Sirva gelado, como aperitivo ou com saladas e pescados. R$ 79,90 na Evino.
Publicado em VEJA São Paulo de 17 de julho de 2026, edição nº 3004.
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