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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

De garrafão ao riesling: como o gosto pelos vinhos muda

Entre opções mais doces da juventude, até versões mais potentes, o paladar da bebida se transforma com o tempo

Por Marcelo Copello 29 Maio 2026, 06h00
Silhueta de um homem de costas, segurando uma taça de vinho tinto, observando o pôr do sol sobre um lago com montanhas ao fundo. O céu tem tons de azul e laranja, e a água reflete a luz do sol. Uma lâmpada pendurada aparece no canto superior direito
O gosto dos vinhos muda - e ainda bem (Freepik/Divulgação)
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De garrafão ao riesling: como o gosto pelos vinhos muda Priorizar nos meus resultados Google

Você lembra do primeiro vinho que bebeu? Eu lembro do meu. Foi um vinho de garrafão, anônimo, servido em uma caneca, na Adega Velha Raposa, na Ilha do Governador, no final dos anos 80. Quem servia era o Eurico, um gaúcho figuraça que comandava o pequeno bar como extensão da própria casa. Lá pela madrugada, depois de algumas canecas, ele abria espaço no salão e dançava uma chula gaúcha, batendo os pés com energia que parecia brotar do chão.

O vinho era de garrafão, sem rótulo, sem origem clara. No menu só havia tinto suave e tinto rascante. Mas havia ali algo muito mais forte do que o vinho em si: o ritual de beber, a descoberta, a sensação de entrar num mundo adulto até então proibido. Eu bebia escondido dos meus pais e voltava para casa a pé, tentando suar o álcool antes de chegar, com a regra tácita de não abrir a boca — senão minha língua roxa me denunciaria.

Depois vieram os espumantes doces, os Asti moscatéis, e nos anos 1990 os brancos alemães de garrafa azul. Em ocasiões especiais, surgia o Liebfraumilch — o original alemão, que para muitos brasileiros foi a porta de entrada nos vinhos importados.

Depois veio a fase da potência. No final da década de 90 o Chile trouxe tintos frutados e maduros; no início dos anos 2000, a Argentina veio com os potentes malbecs. Era o estilo da época — moderno, poderoso — e eu me encantei por aqueles exemplares sul-americanos como praticamente todo mundo que acompanhava o vinho naquele momento.

Hoje meu gosto mudou. Ultrapassei faz tempo a marca dos 100 000 vinhos provados e provo milhares por ano, quase sempre por trabalho. Quando chegam as raras horas livres, percebo algo curioso: tudo o que eu não quero são tintos jovens e encorpados.

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Busco vinhos que já fizeram o trabalho duro do tempo: safras antigas, onde os taninos viraram seda e os aromas se transformaram em camadas complexas. Ou então champanhes e rieslings alemães — aqueles mesmos das garrafas azuis da juventude, agora em versões muito mais sérias e fascinantes.

De certa forma, dei uma volta completa. Comecei com vinhos simples e doces, passei pela fase da potência e hoje encontro prazer na delicadeza, no frescor e na moderação alcoólica. Com o tempo aprendemos que força não é tudo, que elegância fala mais baixo — e, exatamente por isso, diz mais.

O gosto muda porque nós mudamos. E há algo de reconfortante em perceber que o vinho continua evoluindo conosco. Ou, quem sabe, que somos nós que finalmente aprendemos a escutá-lo.

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Duas garrafas de vinho em fundo branco: à esquerda, vinho tinto Cappineto Chianti Classico Riserva 2019 com selo vermelho; à direita, vinho branco Gustav Riesling Trocken com rótulo azul claro e detalhes florais
Sugestões de rótulos (Reprodução/Divulgação)

Carpineto Chianti Classico Riserva 2019

80% sangiovese e o resto de canaiolo e outras castas da região de Chianti, com doze meses em barricas de carvalho francês e eslaveno. Cor granada. Aromas de frutas vermelhas maduras, especiarias doces, café, florais, cedro e tabaco. No paladar, mostra estrutura firme, acidez vibrante e taninos polidos. R$ 219,90, na Wine.

Gustav Riesling Trocken Rheinhessenn

Do produtor Moselland, feito com uvas 100% riesling da região de Rheinhessen na Alemanha, sem passagem por madeira. Cor esverdeada clara. Aroma frescos de maçã verde e flores. Paladar leve e com ótima acidez. R$ 99,90, na Evino.

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Publicado em VEJA São Paulo de 29 de maio de 2026, edição nº 2997.

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