Dois olhares sobre o luto
No livro ‘Lia, Mira, Maria’, Marília Garcia usa poemas e arte para falar da perda da mãe; em ‘Como Navegar o Abismo’, Paula Gicovate aborda a reconstrução
Recomendação de leitura que mostra dois olhares sobre um tema universal e inescapável: o luto.
Lia, Mira, Maria (WMF Martins Fontes; 112 págs; R$ 69,90). Depois de rodar festivais e espaços culturais entre 2022 e 2025 como performance, o projeto Lia, Mira, Maria, da poeta e ensaísta Marília Garcia, ganha as páginas dos livros.
A obra cruza poemas, fotografias, arquivos e obras de arte para encarar as perdas, a memória e o processo de criação. O ponto de partida é a dor pela morte da mãe, Lia, e da amiga Maria Nazaré, que leva Marília ao encontro das delicadas monotipias que Mira Schendel (1919-1988) produziu nos anos 1960.
Entre papéis japoneses, fotografias antigas e o ato de nadar, a autora não faz do luto apenas um tema, mas um mergulho visceral na fragilidade da vida e na própria escrita. Com projeto gráfico de Flávia Castanheira, a obra expande as relações entre texto e imagem e traz duas opções de capa.
Como Navegar o Abismo (Record; 208 págs; R$ 69,90) A escritora Paula Gicovate estreia na Editora Record com seu terceiro romance.
O livro acompanha Nara, uma chef de cozinha premiada que, após perder a mãe para um câncer, abandona a carreira no Rio de Janeiro e retorna à cidade natal, no interior, onde precisa confrontar tudo o que parecia definitivo.
Lá, entre a convivência com Julia, uma avó austera que evita falar da tragédia, e a tentativa de reconstruir a própria vida, a protagonista enfrenta a dor da ausência e se vê impossibilitada de cozinhar.
A obra parte da experiência pessoal da autora, que perdeu a mãe em 2022, mas envereda pela ficcionalização de si e da experiência vivida do luto. E usa a gastronomia como pano de fundo para discutir o ciclo de cuidados na vida das mulheres e as difíceis rotas da reinvenção.





