SXSW 2026: Spielberg defende criatividade humana na era da IA
No festival de Austin, o cineasta refletiu sobre o poder das histórias
No segundo dia do SXSW 2026, duas conversas muito diferentes acabaram convergindo para a mesma pergunta: o que ainda é profundamente humano em uma era dominada por algoritmos e inteligência artificial? De um lado, o executivo da Spotify apresentou sua visão para o futuro da mídia. Do outro, o cineasta Steven Spielberg subiu ao palco para falar sobre algo muito mais antigo, e talvez mais essencial do que qualquer tecnologia: o poder das histórias.
A conversa com Spielberg foi menos uma entrevista e mais uma aula de vida. Com a serenidade de quem passou mais de seis décadas criando algumas das narrativas mais marcantes do cinema, ele refletiu sobre a origem da criatividade e o sentido profundo de contar histórias. Quando perguntado pelo entrevistador sobre extraterrestres o cineasta afirmou “tenho uma suspeita muito forte, quase uma intuição de que não estamos sozinhos aqui na Terra neste momento.”
Em determinado momento, também revelou que talvez suas melhores histórias nunca tenham sido filmadas. Durante anos, contou, colocava seus sete filhos para dormir inventando histórias. Ia de quarto em quarto, como um médico fazendo visitas pela casa, atendendo aos chamados da noite. No fim, concluiu que suas melhores narrativas talvez tenham ficado ali mesmo, no espaço íntimo da família, longe das telas e do público.
A fala trouxe uma lembrança poderosa, a de que a criatividade nasce primeiro na vida, antes de se transformar em obra. Spielberg também descreveu o poder emocional do cinema de forma quase existencial. Assistir a um filme, disse ele, é viver outra vida por algumas horas. “Você morre um pouco quando um filme termina”, comentou, “porque acabou de viver uma vida inteira dentro daquela história.”
Inevitavelmente, a conversa chegou ao tema que domina o festival: a inteligência artificial. Spielberg não demonizou a tecnologia, mas traçou um limite claro. “Não sou contra a IA. Sou contra ela substituir um indivíduo criativo”, explicou.
Outro destaque foi a apresentação de Gustav Söderström, co-CEO e chief product & technology officer da Spotify, sobre a transformação tecnológica da indústria musical. Em sua fala, contou a história da empresa como uma sucessão de reinvenções diante das mudanças do mundo digital.
A Spotify nasceu em um momento em que a indústria musical parecia colapsar diante da pirataria. A resposta da empresa foi simples e radical ao mesmo tempo: não se tratava de combater downloads ilegais nos tribunais, mas de criar uma experiência melhor para os usuários. Como ele explicou no palco, “você não vence a pirataria com advogados, você vence com um produto melhor.”
Agora, segundo Söderström, a internet entra em uma nova fase. Primeiro veio a era da curadoria, quando os usuários organizavam suas próprias playlists e descobertas. Depois surgiu a era da recomendação, dominada pelos algoritmos que passaram a sugerir o que ouvir. Hoje começamos a entrar na era da geração, em que usuários poderão conversar com plataformas e cocriar experiências culturais com a ajuda da inteligência artificial. Nesse cenário, a mídia tende a se tornar cada vez mais interativa e personalizada.
Mas talvez o aspecto mais interessante dessa transformação seja um paradoxo: quanto mais conteúdo pode ser produzido por máquinas, mais valiosas parecem se tornar as experiências humanas autênticas, as histórias, os encontros, a identidade cultural.
No fundo, o segundo dia do SXSW deixou uma impressão clara. A tecnologia continuará ampliando radicalmente nossas ferramentas criativas. Mas a centelha que dá sentido a tudo isso ainda nasce no mesmo lugar de sempre. Como lembrou Spielberg, com uma simplicidade desarmante: “Durante as filmagens, sua intuição é sua melhor amiga. E se você escutá-la, e deixar que ela te conduza ao longo do dia, ela vai te guiar”.





