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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

O trabalho de 2026 já não veste como antes

Burnout, IA e cultura organizacional revelam por que o modelo atual precisa de ajuste

Por Sabina Deweik
5 jan 2026, 08h00 •
Mulher usando jaqueta apertada
Como será o “uniforme” do trabalho que vem pela frente? (photogenia/Freepik/Creative Commons)
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  • Todo começo de ano provoca um ajuste no olhar. Depois de experimentar outro ritmo nas férias, fica mais difícil aceitar, sem questionar, certos automatismos do trabalho que se tornaram quase invisíveis de tão normalizados. É nesse momento que surge a inquietação: como será o “uniforme” do trabalho que vem pela frente? Não no sentido literal, claro, mas simbólico. Se o trabalho fosse uma roupa, qual seria o traje de 2026? Estruturado ou flexível? Elegante ou confortável? Pensado para performance extrema ou para sustentar o corpo ao longo do dia?

    Os dados ajudam a dar contorno a essas perguntas. O Workforce Trends Report 2026, que ouviu profissionais em diferentes regiões do mundo, descreve um cenário paradoxal: nunca tivemos tantas ferramentas, tanta tecnologia disponível e tanta flexibilidade declarada e, ao mesmo tempo, nunca houve níveis tão altos de esgotamento. Mais de 80% dos profissionais relatam algum grau de burnout, enquanto o engajamento caiu de forma acentuada no último ano. Seguimos trabalhando, entregando, performando. Mas algo, claramente, já não veste bem.

    A inteligência artificial é parte central dessa equação. Ela acelera processos, automatiza tarefas e redefine funções. Mas, ao contrário do que se imaginava, não simplificou o trabalho humano, apenas o deslocou. Passados dois anos de implementação da IA, o que sobra para as pessoas são as camadas mais complexas da atividade profissional: decisões ambíguas, responsabilidade, ética, criatividade e julgamentos que não cabem em planilhas. O trabalho se torna menos operacional e muito mais cognitivo e emocionalmente exigente.

    É nesse ponto que o “traje do trabalho” começa, de fato, a ganhar forma. Ele não pode ser rígido demais, porque o corpo não aguenta. Mas também não pode ser frouxo, porque falta direção. O relatório escancara uma fratura importante: enquanto a maioria dos executivos acredita que a cultura organizacional é forte e bem definida, menos de 40% dos colaboradores compartilham dessa percepção. Para muitos, a cultura parece vaga, reativa ou restrita ao discurso institucional, algo que se diz, mas não se vive.

    Em modelos híbridos e remotos, isso se torna ainda mais evidente. A cultura deixou de ser absorvida no convívio cotidiano e passou a depender da intencionalidade. E intenção exige clareza, coerência e comunicação consistente, três elementos que ainda estão longe de ser regra no dia a dia das organizações.

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    Outra mudança decisiva é a revisão do próprio conceito de flexibilidade. Ela deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser expectativa básica. Mas o relatório é claro, flexibilidade sem autonomia real não funciona. Permitir trabalhar de qualquer lugar enquanto se mantém uma lógica de controle excessivo e agendas sobrecarregadas apenas desloca o problema. O desgaste continua. Só muda de cenário.

    A lógica da presença perde força diante da busca por impacto real. Indicadores quantitativos dão lugar a critérios que avaliam valor, enquanto a proliferação de reuniões cede espaço a momentos de decisão mais claros. O recurso mais disputado já não é o tempo disponível, mas a energia cognitiva necessária para sustentar escolhas de qualidade.

    Se o vestuário híbrido virou símbolo de uma vida que combina conforto, mobilidade e performance, o trabalho começa a seguir a mesma lógica. Não se trata de trabalhar menos, mas de trabalhar de um jeito que não consuma tudo. Um modelo que reconheça limites humanos, respeite ritmos e não confunda comprometimento com exaustão silenciosa.

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    O contraste entre descanso e rotina apenas torna visível o que já estava ali. E os dados mostram que ignorar esse sinal sai caro: em perda de engajamento, aumento de rotatividade e adoecimento emocional.

    O trabalho de 2026 não será decidido apenas por novas tecnologias, cargos ou estruturas organizacionais. Ele será moldado por escolhas pequenas e repetidas: como distribuímos atenção, como organizamos o tempo, como tratamos limites humanos?

    Se o trabalho fosse uma roupa, talvez 2026 não peça algo mais sofisticado ou mais performático, mas algo mais honesto com o corpo e a vida real. Não queremos mais continuar vestindo um modelo que não serve mais. O verdadeiro luxo do futuro dificilmente será sobre status e cargos. Deve ser, simplesmente, seguir em um trabalho que conseguimos vestir sem adoecer.

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