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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

As 10 tecnologias que começam a redesenhar o mundo

Da IA em escala hipermassiva à biologia programável, novo relatório do MIT Technology Review expõe as forças que estão reconfigurando economia

Por Sabina Deweik 23 fev 2026, 08h00 • Atualizado em 23 fev 2026, 12h14
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 (Freepik/Reprodução)
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  • Logo mais, de 12 a 18 de março, estarei em Austin para acompanhar durante uma semana o South By Southwest, o maior e mais emblemático festival de inovação, tecnologia e cultura do mundo. Mais do que um evento, o SXSW funciona como um grande termômetro das transformações que começam a ganhar forma no presente e que passam a redesenhar mercados, comportamentos e mentalidades.

    Todos os anos, esse período coincide também com a circulação de relatórios que ajudam a decifrar o espírito de nosso tempo. Entre eles, o 10 Breakthrough Technologies 2026, do MIT Technology Review, que surge como uma espécie de lente privilegiada para observar não apenas novas tecnologias, mas mudanças estruturais em curso.

    O que a edição deste ano revela é algo particularmente significativo: a tecnologia deixa de ser percebida apenas como ferramenta e passa a se consolidar como infraestrutura, ambiente e força organizadora da realidade.

    A inteligência artificial é o exemplo mais evidente dessa virada. Já não falamos somente de aplicações ou assistentes digitais, mas de ecossistemas físicos gigantescos necessários para sustentar modelos cada vez mais complexos. Os chamados Hyperscale AI Data Centers (Centros de dados de IA em hiperescalas), são infraestruturas massivas de computação de última geração construídas especificamente para treinar e rodar modelos gigantes de inteligência artificial.

    Isso exige enormes quantidades de energia e capacidade de processamento, que materializam uma mudança simbólica e concreta. O digital ganha peso, demanda energia em escala massiva e passa a influenciar decisões geopolíticas, energéticas e ambientais. A nuvem, definitivamente, toca o chão.

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    Essa pressão energética ajuda a explicar por que a energia nuclear de próxima geração retorna ao centro das discussões. Reatores menores, mais seguros e potencialmente mais viáveis economicamente deixam de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma questão estratégica em um mundo que eletrifica tudo, inclusive a inteligência das máquinas.

    Em outra frente, vemos a própria lógica do trabalho cognitivo se transformar. A programação generativa inaugura uma inflexão curiosa: programar agora não significa apenas escrever linhas de código, mas sim estruturar intenções, contextos e decisões. A criação tecnológica começa a migrar da execução para a arquitetura mental, alterando profundamente o que entendemos como competência e valor no universo digital.

    Mas são talvez as tecnologias ligadas à biologia que carregam as implicações mais profundas. Plataformas de biologia sintética e técnicas avançadas de análise genética apontam para um cenário em que a vida se torna progressivamente programável. A avaliação genética de embriões, por exemplo, amplia horizontes médicos relevantes, mas inevitavelmente desloca fronteiras éticas, sociais e filosóficas.

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    Ao mesmo tempo, surgem novas formas de interação entre humanos e sistemas inteligentes. Os chamados companheiros de IA indicam uma transformação menos visível, porém culturalmente poderosa: algoritmos passam a ocupar espaços emocionais, relacionais e cotidianos antes exclusivamente humanos. O impacto levanta preocupações sobre dependência ou interpretações incorretas de interação social. A experiência de presença, companhia e vínculo muda radicalmente.

    A IA também deixa as telas e ganha corpo no mundo físico por meio de sistemas autônomos e incorporados. Robôs, sensores e agentes inteligentes começam a interagir diretamente com ambientes, cidades e rotinas. A automação, que antes operava majoritariamente no plano informacional, passa a reconfigurar a materialidade do cotidiano. Entramos na fase de automatização de tarefas físicas complexas, desde logística até assistência pessoal.

    No pano de fundo de todas essas mudanças está uma camada frequentemente subestimada: a conectividade avançada. Redes além do 5G formam a base invisível que permitirá a comunicação entre dispositivos, sistemas autônomos e inteligências distribuídas. Sem essa infraestrutura, grande parte das promessas tecnológicas simplesmente não se sustenta.

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    O que mais me instiga ao observar tanto o relatório quanto o SXSW é perceber que não estamos diante de tendências isoladas, mas de uma reorganização sistêmica. Computação extrema, energia, biologia programável, conectividade e inteligência artificial passam a se entrelaçar de forma cada vez mais inseparável.

    O verdadeiro debate sobre o futuro, portanto, talvez não seja apenas sobre o que as tecnologias podem fazer, mas sobre o que elas estão fazendo conosco, com nossas decisões, relações, percepções de valor e estruturas sociais.

    É esse território de interseção entre tecnologia, cultura e comportamento que pretendo explorar em Austin. Estou já ansiosa para trazer novidades e capturar as mudanças em curso.

    Seguimos a conversa por aqui. Porque futuros não acontecem só nos palcos. Eles se infiltram na nossa vida real.

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