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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

Alfabetização da Verdade: por que aprender a ler o mundo virou uma urgência

Quando imagens enganam, a IA confunde e a confiança se rompe, discernimento deixa de ser virtude e passa a ser responsabilidade coletiva

Por Sabina Deweik 9 fev 2026, 08h00 •
A importância de saber ler o mundo em 2026
A importância de saber ler o mundo em 2026 (Freepik/Creative Commons)
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  • Alfabetização da verdade é a capacidade de ler o mundo quando a realidade já não se apresenta de forma confiável. Não se trata mais de acesso à informação, mas de discernimento. De saber pausar, contextualizar, questionar e reconhecer quando algo apenas parece verdadeiro. Esse conceito emerge porque a verdade, como a conhecíamos, entrou em colapso.

    Durante décadas, fomos educados a acreditar que imagens provavam fatos, que registros confirmavam acontecimentos e que evidências eram suficientes para sustentar consensos. Mas, em 2026 esse pacto se rompe. O relatório The Future 100: 2026, da VML Intelligence, mostra que 81% das pessoas acreditam que a verdade está ameaçada e 71% afirmam que a Inteligência Artificial tornou difícil distinguir o que é real do que é falso. Não estamos diante de uma crise pontual de fake news, mas de uma crise estrutural de legibilidade do real.

    Esse cenário não surge do nada. Ele é o resultado da convergência de três forças poderosas: aceleração tecnológica, economia da atenção e fragilidade emocional coletiva. A tecnologia tornou a criação de imagens, vozes e vídeos hiper-realistas acessível a qualquer pessoa. A economia da atenção recompensa narrativas extremas, emocionais e simplificadas. E uma sociedade exausta, ansiosa e polarizada tornou-se mais suscetível a acreditar naquilo que confirma seus medos ou desejos. Como consequência aparece um ambiente informacional onde a aparência substitui a evidência e onde a dúvida constante corrói a confiança.

    A ironia é que nunca consumimos tanta informação e nunca estivemos tão confusos. O relatório aponta que consumimos imagens muito mais rápido do que conseguimos refletir sobre elas. Imagens mobilizam emoções antes do pensamento. Por isso, governos como o da Suécia já tratam a leitura crítica de imagens como parte da defesa psicológica da população. A alfabetização da verdade passa, necessariamente, pela alfabetização visual: aprender a ler o que está fora do enquadramento, o que foi editado, o que foi encenado.

    Ao mesmo tempo, a desinformação deixou de ser artesanal. Tornou-se industrial. Automatizada, escalável e, muitas vezes, estratégica. Não se trata apenas de enganar, mas de desorganizar a percepção coletiva, gerar cinismo e paralisar o diálogo. Quando tudo pode ser falso, nada parece confiável. E quando nada é confiável, a cooperação se desfaz.

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    As respostas começam a surgir em múltiplas camadas. Há soluções técnicas, como selos de autenticidade que funcionam como rótulos nutricionais da informação, indicando origem e uso de IA. Há estratégias educacionais, como o prebunking, que expõe as pessoas a versões suavizadas de táticas de manipulação para treiná-las a reconhecê-las depois. É uma espécie de vacina cognitiva.

    Alfabetizar-se na verdade, portanto, não é desconfiar de tudo. É aprender a sustentar a dúvida sem cair no cinismo. É saber perguntar: quem se beneficia dessa narrativa? Por que ela circula agora? O que ficou de fora? Que emoção ela tenta provocar antes de informar?

    Em 2026, confiança deixa de ser um valor abstrato e passa a ser infraestrutura social. Sem ela, não há decisão coletiva, não há diálogo possível, não há futuro compartilhado. Reconstruí-la exige tecnologia, regulação e educação mas, também exige maturidade emocional, responsabilidade individual e coragem para desacelerar o julgamento.

    E isso, hoje, já é uma forma de responsabilidade coletiva.

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