A Era da Insularidade: por que estamos nos fechando em bolhas de confiança?
Relatório global aponta avanço da desconfiança e da fragmentação social
Foi publicado recentemente o Edelman Trust Barometer 2026, um dos relatórios mais consistentes para entender o estado emocional, social e político do mundo. Com mais de 33 mil entrevistados em 28 países, o estudo de 2026 traz um diagnóstico que deveria nos tirar o sono: estamos vivendo a “Era da Insularidade”, um fenômeno em que a desconfiança do diferente se tornou a norma, não a exceção.
Os números são contundentes. Sete em cada dez pessoas no mundo dizem ser hesitantes ou simplesmente não estarem dispostas a confiar em alguém que viva por valores diferentes, que acredite em fatos diferentes, que queira resolver problemas sociais de outra forma ou que tenha uma cultura, origem ou estilo de vida distinto do seu. Esse dado se repete entre países, idades, rendas e espectros políticos. Não é uma dinâmica de nicho, é um clima global.
Esse quadro revela um movimento de retração psicológica e social em que, diante de um mundo percebido como ameaçador, as pessoas passam a confiar apenas nos seus, família, amigos próximos, círculos íntimos, e desconfiam de tudo o que vem de fora. O “nós” se encolhe e o “outro” vira risco.
Pense na sua empresa. Agora imagine que 42% dos funcionários prefeririam trocar de departamento a ter um chefe com valores distintos dos seus. Ou que 34% admitem que colocariam menos esforço em ajudar um líder de projeto se ele tivesse crenças políticas divergentes. Não estamos falando apenas de teoria. Esse comportamento se traduz em perda de produtividade, sabotagem velada de iniciativas e fragmentação de equipes. Em um mundo onde a colaboração interfuncional é imperativa, estamos criando feudos internos baseados não em competência ou visão estratégica, mas em tribalismo identitário.
O impacto da insularidade não para na porta das empresas. Ele transborda para a economia, o comércio e as relações entre países. Mais de um terço das pessoas afirmam que aceitariam reduzir a presença de empresas estrangeiras em seu país, mesmo sabendo que isso traria preços mais altos. É o sinal de um mundo que prefere pagar mais caro a lidar com o “de fora”. Assim, esse fechamento deixa de ser apenas um traço psicológico e passa a alimentar o nacionalismo econômico, fragilizar cadeias globais de suprimentos e, no limite, empobrecer a todos, inclusive aqueles que acreditam estar se protegendo.
Mas como chegamos aqui? A pesquisa propõe uma progressão clara: a polarização gerou ressentimento e o ressentimento gerou insularidade. Cada etapa foi alimentada por crises sobrepostas: a pandemia, a crise do custo de vida, o avanço da desinformação, a insegurança no trabalho, as guerras comerciais, a inflação corrosiva, os conflitos geopolíticos e o deslocamento tecnológico causado pela automação e pela inteligência artificial.
Talvez o achado mais perturbador do relatório seja este: pessoas de alta e baixa renda não apenas vivem em realidades econômicas diferentes, mas em realidades cognitivas opostas. A diferença de confiança institucional entre os 25% mais ricos e os 25% mais pobres mais que dobrou desde 2012. Hoje, esse abismo é de 15 pontos percentuais. Isso significa que, quando uma autoridade governamental, um CEO ou um cientista fala, metade do país acredita e a outra metade desconfia, não por discordância pontual, mas porque vivem em universos paralelos de confiança.
Mas o que mais me inquietou ao ler o diagnóstico não foi um gráfico nem uma estatística isolada, mas uma sensação difícil de ignorar: a de que estamos perdendo algo fundamental, a crença de que o futuro pode ser melhor do que o presente. Apenas 32% das pessoas acreditam que a próxima geração viverá melhor do que a atual. A ideia de futuro compartilhado, que sustentou projetos coletivos por décadas, está se dissolvendo. E quando não acreditamos em um amanhã melhor para todos, a tendência é proteger apenas o próprio território emocional, econômico e simbólico. E como última consequência temos o colapso da esperança.
Ainda assim, não acredito que este seja um ponto sem retorno. E, para não terminar essa coluna no pessimismo, quero compartilhar uma saída possível diante desse diagnóstico preocupante. Um conceito que pode soar ingênuo, mas que merece atenção: o “trust brokering” ou a mediação de confiança. A ideia central é simples: em vez de tentar mudar as pessoas ou forçar consenso, instituições e líderes podem atuar como tradutores entre grupos insulados, identificando interesses comuns e facilitando colaboração apesar das diferenças.
Exemplos? Empresas que criam equipes deliberadamente diversas em valores, mas unidas por objetivos compartilhados. Governos que exigem discurso civil de políticos. Mídia que dedica cobertura equilibrada a diferentes perspectivas, em vez de alimentar polarização por cliques. ONGs que estabelecem programas de mediação comunitária.
Não é utopia. É evidência empírica. Quando instituições praticam “trust brokering” de forma eficaz, pessoas de baixa renda aumentam sua confiança institucional em 18 pontos percentuais, praticamente eliminando o abismo com os ricos.
A insularidade, no fundo, é um sintoma do nosso tempo. Um tempo acelerado, fragmentado, exausto, em que o excesso de ruído nos empurra para bolhas de segurança. Mas ela também é um alerta. Se confiar apenas em quem é igual parece mais confortável, o preço desse conforto pode ser a paralisação coletiva.
O relatório sugere que ainda há tempo. Mas a janela está se fechando. E a história não costuma ser generosa com sociedades que escolhem o conforto da tribo em vez da coragem da colaboração. Se a Era da Insularidade nos empurra para bolhas de confiança cada vez menores, será que o verdadeiro ato de liderança do presente não é transformá-las em pontes antes que se tornem muros invisíveis?





