É possível viver (d)a sua arte?
Para Kalina Juzwiak, obras artísticas nascem a partir de processos tão orgânicos quanto inspirar e expirar — e a beleza delas também
A arte, para mim, sempre foi uma espécie de canalização. Não no sentido mais esotérico da palavra, mas sim de tudo que observo e absorvo do meu entorno e traduzo em arte. É uma espécie de liquidificador humano com uma seleção de frutas da estação que entram, sem receita mesmo. Me dou o tempo para isso e escolho desacelerar todos os ruídos físicos e emocionais do meu contexto e me conecto ao meu eu da estação. Afinal, somos cíclicos e temos momentos, fases, e estamos em constante movimento e evolução. Nada é estático, mas tudo pode ser complexamente simples.
Gosto de dizer que a arte é como um processo natural de inspirar e depois expirar. Como o ar, tudo aquilo que respiro e inspiro tem um efeito sobre o meu corpo físico. Da mesma forma, a arte sai em forma de expressão e não é apenas um produto estético, mas também parte latente da intimidade do meu ser, no sentido do meu corpo físico, mental e espiritual, presente e entregue àquele momento, deixando tudo apenas fluir da forma que deve ser.
Não existe controle, toda arte é feita à mão livre e quando faço arte para os outros, que consiste em grande parte do meu cotidiano criativo, faço esse processo para o outro. Absorvo as vontades, desejos e necessidades do outro, observo o contexto, mergulho para dentro e deixo fluir, sobre as mais variadas superfícies. Seja o meu pintar naquele momento ou o resultado final que deixo para trás, gosto de pensar que sou como uma pessoa temporária (como as estações), que passa com a missão de convidar para um novo olhar e até para o transformar, através de uma palavra, um sorriso e um toque de arte.
Isso é algo exclusivo da minha vida como artista? Penso que não. Quando afirmo que vivo (d)a minha arte, é uma escolha diária de enxergar toda a vida como uma obra de arte, que temos a oportunidade não apenas de viver, mas também de transitar, sentir e admirar. Como a obra, a vida nos convida a um mergulho, primeiramente para dentro, para que possamos nos conhecer e identificar nossas ações, reações e estações.
Todos temos dificuldades e capacidades, além de contextos diferentes. Com esse pensamento e exercício diário, percebemos quanto somos únicos. Assim como as obras de arte que faço, também aprendi a me ver dessa forma. Isso não significa que sou melhor ou pior que os outros, apenas sou e estou mais arte.
Desde o momento em que choramos pela primeira vez, somos ensinados a engolir o choro e fugir dos sentimentos e daquilo que supostamente é certo ou errado. Os ruídos se tornam parte de nós, sem muitas vezes prestarmos atenção naquela voz que habita — e muitas vezes grita — dentro de nós. A voz pode se chamar intuição, propósito ou verdade, você escolhe. Muitas vezes queremos gritar e não fazemos isso, não viramos do avesso para que o grito se torne essência, para que se torne arte de viver.
Eu também ainda tenho dias em que sou tomada pelos ruídos dos outros e meus também. É uma simples complexidade e um exercício diário de permissão e de entrega. Não existem receitas ou fórmulas, apenas o convite e a oportunidade para uma nova perspectiva de enxergar a vida como obra de arte e se enxergar como arte e parte da natureza.
Kalina Juzwiak, a kaju (@bykaju) é artista plástica e empreendedora criativa. Convida as pessoas a mudar de perspectiva e refletir sobre os encontros entre os fluxos da arte e o da existência humana.
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Publicado em VEJA São Paulo de 17 de fevereiro de 2021, edição nº 2725
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