Aprender no Caminho é a meta para uma liberdade ainda maior
Para Ricardo Rangel, o percurso da viagem ajuda o viajante a se relacionar com mais calma e paciência
POR QUE O CAMINHO?
Por que alguém decide largar tudo e percorrer 800 quilômetros a pé? No passado, o Caminho de Santiago era uma forma de expurgar os pecados e obter o perdão divino, mas… hoje? Bem, a verdade é que nem os peregrinos sabem a resposta, só a descobrem depois de muita caminhada. Há quem busque a aventura, o exercício, a superação, mas a maioria (como foi comigo) quer processar o fim de uma etapa na vida e se preparar para outra.
O DESTINO NÃO É SANTIAGO
Santiago de Compostela é o fim do Caminho, mas não é a meta. A meta é o caminho em si, a viagem, o processo, o aprendizado. Durante o percurso, reflete-se muito, e, se der tudo certo, o peregrino aprende a se relacionar com a vida de maneira mais calma e suave, a ter menos pressa, mais paciência.
A METÁFORA
O Caminho é uma metáfora poderosa da vida. Não sabemos bem por que estamos ali, e o começo é inseguro e hesitante: tememos o esforço, o desconhecido, a dor. Enfrentamos obstáculos, mas há também pequenas alegrias e momentos de grande elevação. Fazemos amigos, e há quem encontre o amor. Mais cedo ou mais tarde vai acabar, mas não temos certeza de como ou quando.
O ETHOS DO CAMINHO
O Caminho tem um ethos próprio, em tudo oposto ao da vida moderna ocidental. Pare de se preocupar, não antecipe problemas, tenha calma e paciência, evite a pressa, abrace o desconhecido, aceite o que o Caminho lhe dá. Acima de tudo, não julgue: todo mundo tem seus motivos e suas circunstâncias, ouça com atenção, tente compreender.
LIBERDADE
O sentimento de liberdade é constante no Caminho. Nina Simone disse certa vez que liberdade é não sentir medo. O medo (da morte, do sofrimento, do fracasso, da falta de dinheiro, do amor frustrado) é determinante em nossa vida, e nos organizamos em torno dele. Mas no Caminho não há medo algum — não admira que peregrinos sejam leves e felizes.
CANSAÇO E DOR
O Caminho não é excessivamente cansativo, mas a dor física é inescapável: ninguém anda 25 quilômetros por dia impunemente. Mas nem isso é um obstáculo real: o medo da dor logo desaparece e ela se torna uma espécie de companheira de viagem, com a qual se convive sem maior problema. A desmistificação da dor é uma conquista interessante, e libertadora, num mundo que preza tanto (demasiado?) o conforto físico.
A MOCHILA
A relação do peregrino com sua mochila é especial: é preciso levar o necessário, mas nada a mais, pois cada alfinete pesa uma tonelada. O paralelo entre nossa mochila física e nossa “mochila” emocional é óbvio: é melhor deixar perdas, dores, ressentimentos, falsos amigos, amores que não deram certo pelo caminho.
SOZINHO E ACOMPANHADO
É melhor viajar sozinho do que acompanhado, a experiência fica mais rica. Mas isso não significa estar sozinho o tempo todo: fazem-se muitos amigos. Pessoas que não se conhecem e acham que não se encontrarão de novo tendem a ser incrivelmente sinceras e revelar muito de si mesmas. encontros assim podem ser profundos, intensos, transformadores, e, às vezes, se tornam grandes amizades.
Ricardo Rangel é escritor, tradutor, analista político, colunista da revista VEJA. Escreveu o livro O Destino É o Caminho — Uma Crônica do Caminho de Santiago, lançado pela Edições de Janeiro.
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Publicado em VEJA São Paulo de 20 de janeiro de 2021, edição nº 2721
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