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Às quartas-feiras, Xan Ravelli, musicoterapeuta, especialista em comportamento e inteligência emocional, comunicadora, apresentadora de TV e empreendedora vai dividir com os leitores sua bagagem multifacetada, com reflexões sobre o amor e as relações na pós-contemporaneidade

Um brinde à festa da carne

Na coluna desta semana, Xan fala sobre a importância de honrar os próprios desejos

Por Xan Ravelli
18 fev 2026, 15h35 •
Bloco Tarado Ni Você, que sai no centro de SP
Bloco Tarado Ni Você, que sai no centro de SP (@victormoriyama/Instagram)
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  • Aprendemos a disciplinar o corpo antes mesmo de aprender a escutá-lo. Desde cedo nos ensinaram que desejo é excesso, que prazer é distração, que intensidade é risco. O que é produtivo é respeitado. O que é prazeroso é subestimado, tolerado quando muito. 

    Mas e se estivermos errando feio ao nos afastar do prazer, essa forma tão profunda e legítima de sentir? Existe espiritualidade possível no corpo. Existe oração no toque, consciência no gozo.

    O prazer não é oposição à ética, nem inimigo da disciplina. Ele é parte da experiência humana. É linguagem. É sinal. É bússola. O desejo, mesmo quando se manifesta de forma caótica, intensa ou libertina, organiza nossos quereres. Vale demais viver! Desde que seja consensual, entre humanos vivos e adultos, como já combinamos por aqui.

    Quando dissociamos prazer de dignidade, passamos a viver pela metade. Trabalhamos, produzimos, cumprimos metas, entregamos resultados… mas esquecemos que somos feitos também para experimentar o mundo com todos os sentidos. Para rir alto. Para dançar até suar. Para beijar com presença. Para comer algo que desperta memória. Para sentir tesão sem culpa.

    Não se trata de hedonismo irresponsável,  embora, às vezes até ele ensine algo. Trata-se, sobretudo, de integração. O corpo não é um obstáculo à evolução; ele é o caminho! Ele registra o que nos faz bem e o que nos machuca, denuncia relações que nos diminuem, celebra encontros que nos expandem. Lembra, com honestidade brutal, quando estamos vivendo por convenção e não por verdade. Que a gente não subestime a sabedoria do sentir. 

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    Há uma armadilha perigosa na disciplina sem prazer: ela nos endurece. Nos transforma em máquinas eficientes e emocionalmente exaustas. E há outra armadilha no prazer sem consciência: ele nos dispersa. O desafio talvez esteja em sustentar os dois: rigor e deleite, foco e entrega. Momentos de excesso, quando vividos com observação, também revelam muito sobre nós. Revelam limites. Revelam desejos escondidos. Revelam o que é fuga e o que é expansão. Não é raro que, ao nos permitirmos viver com intensidade, descubramos partes nossas que estavam reprimidas sob camadas de obrigação.

    O prazer é território potente de autoconhecimento. Minimizar o prazer, especialmente o prazer feminino, sempre foi ferramenta de controle. Um corpo que não conhece seu próprio desejo é mais fácil de conduzir. Uma pessoa que sente culpa por sentir é mais fácil de domesticar.

    Talvez esteja na hora de reabilitar o prazer como parte legítima da nossa ética de vida. Não como centro absoluto, mas como componente indispensável. Porque não fomos feitos apenas para sobreviver. Fomos feitos para experimentar. O prazer não nos afasta de quem somos… Ele nos aproxima e é bonito ter coragem de se deleitar daquilo que não fazíamos idéia de que nos alimentava. 

    E talvez, no fim, honrar o próprio desejo seja tão sagrado quanto qualquer oração, porque é ali, na carne que sente, que a vida realmente acontece.

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