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Às quartas-feiras, Xan Ravelli, musicoterapeuta, especialista em comportamento e inteligência emocional, comunicadora, apresentadora de TV e empreendedora vai dividir com os leitores sua bagagem multifacetada, com reflexões sobre o amor e as relações na pós-contemporaneidade

Crianças X O mundo – reflexão de final de férias

Na coluna desta semana, Xan Ravelli fala sobre a importância de incluir os pequenos no convívio social

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28 jan 2026, 16h54 •
Criança com adulto
 (Freepik/Divulgação)
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  • Existem muitas contradições silenciosas na forma como organizamos a vida social. Uma das que mais me incomoda diz respeito ao modo como afirmamos amar crianças, mas seguimos criando cidades, bares, restaurantes e espaços de lazer onde elas simplesmente não cabem. Restaurantes “chiques” sem cadeirinhas para bebês. Bares diurnos que não aceitam crianças. Espaços kids pensados para entreter ou “prender” os pequenos para que não incomodem enquanto os adultos fazem outra coisa. E, curiosamente, lugares familiares onde a paquera parece proibida, como se a presença de crianças anulasse a possibilidade de encontro entre adultos.

    O resultado é simples e cruel: crianças são invisibilizadas e afastadas do convívio social real.

    Não se trata de crianças ocuparem o lazer dos adultos. Trata-se de adultos compreenderem que crianças são gente. Gente que conversa, observa, escuta, aprende, se entedia, se encanta. Crianças precisam conviver e merecem segurança emocional e física quando estão entre outros adultos. Precisam ser validadas não apenas pelo “vir a ser”, mas pelo que já são agora.

    Porque afeto não é isolamento. Afeto é inserção. Inserir crianças no mundo é apresentá-las às regras, aos ritmos, aos limites e também aos prazeres da vida coletiva. As periferias fazem isso muito bem: crianças estão no churrasco com adultos, na faxina de casa, na roda de samba, nas resenhas, nas conversas atravessadas de risada. Isso é repertório de vida. Isso é aprendizado social. Isso é riqueza simbólica para os pequenos.

    Crianças precisam brincar, sim. Mas também precisam ver adultos conversando, rindo, tomando uma cerveja, contando causos, vivendo. Precisam aprender que a vida acontece em coletivo, que o mundo não gira ao redor delas mas também não as exclui. E adultos, por sua vez, precisam descansar, socializar, existir para além da função de cuidador. Precisam, inclusive, experimentar o prazer de apenas observar seus filhos interagindo com outras crianças e adultos ao redor.

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    Não deveria ser uma escolha entre um ou outro. É curioso como parques infantis, muitas vezes, não oferecem comida boa, sombra suficiente ou sequer um banco confortável para quem acompanha. Como se o adulto ali fosse um apêndice, alguém de passagem. Ao mesmo tempo, quantos de nós não sonhamos com algo simples: nossos filhos correndo em um espaço seguro enquanto a gente conversa com amigos, toma uma bebida gelada, troca histórias e respira?

    Espaços mistos são urgentes. Lugares onde crianças possam existir sem serem toleradas com má vontade. Onde adultos não precisem pedir desculpas por ocupar uma mesa com um carrinho ao lado. Onde a presença infantil não seja vista como incômodo, mas com naturalidade, como parte da vida.

    Inserir crianças na sociedade é um gesto de amor. Ensinar convivência é um gesto político. Criar ambientes que acolham diferentes idades é sinal de uma cidade mais madura.

    Talvez o caminho esteja menos em separar,  espaço de adulto aqui, espaço de criança ali, e mais em misturar com responsabilidade, respeito e afeto. Porque crianças não precisam ser o centro do lazer dos adultos. Mas precisam, sim, ter o direito de fazer parte do mundo em que vivem.

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