Raphael Elias não imita Djavan, ele devolve Djavan
Prestes a se despedir de SP, colunista assiste a 'Djavan, O Musical' e avisa: montagem premiada na Vila Olímpia é o melhor resgate da obra do cantor
Hoje embarco para China. Vou passar uma temporada na Ásia, com base em Xangai, desbravando o que der para desbravar em cinco meses. E foi exatamente aí, na semana em que tudo virou logística, que eu decidi fazer uma coisa que não estava na planilha: comprar um ingresso de teatro.
Eu perdi o show do Djavan. Não perdi por desinteresse, perdi por agenda, que é a forma mais burra de perder alguma coisa. Fiquei com aquele buraco pequeno e teimoso de quem viu todo mundo postando e não estava lá. Achei que fosse ficar assim, sem solução, até a próxima turnê. Não ficou.
Fui ver “Djavan, O Musical: Vidas pra Contar”, em cartaz no Teatro Claro Mais SP, no Shopping Vila Olímpia. Saí de lá com a sensação de que tinha ido ao show. Não é força de expressão. Em algum momento do segundo ato eu esqueci que estava assistindo a uma peça sobre um artista e passei a assistir ao artista.
O responsável por isso atende pelo nome de Ingressos pela Uhuu. Ele faz o Djavan e faz sem imitação, sem caricatura, sem aquele truque fácil de copiar trejeito para arrancar risada de reconhecimento. A voz é limpa, aveludada, e sustenta um repertório que não perdoa amador. Quem já tentou cantar Djavan no chuveiro sabe que aquelas melodias sobem por lugares que a garganta comum não alcança. Ele alcança. E mais do que cantar bem, ele entrega a coisa mais difícil de um espetáculo biográfico, que é fazer o público esquecer que está diante de uma biografia.
O resto da montagem está à altura. A direção artística é de João Fonseca, o texto é de Patrícia Andrade e Rodrigo França, e a direção musical divide João Viana, filho do Djavan, com Fernando Nunes. Isso explica muita coisa. A trilha não soa como homenagem feita de fora, soa como alguém que cresceu ouvindo aquele violão dentro de casa. O elenco se desdobra em dezenas de papéis, entre a família de Maceió e os gigantes que cruzaram o caminho dele, e ainda há Elegbara, vivido por Alexandre Mitre, uma entidade que atravessa a narrativa e carrega o espetáculo para um lugar que não é só nostalgia de MPB. É ancestralidade em cena, com nome e com corpo.
O musical já rodou nove cidades brasileiras, cumpriu duas temporadas no Rio e uma em São Paulo, levou o Prêmio Arcanjo de Cultura como melhor produção em teatro musical brasileiro e foi indicado ao Shell e ao APTR. Chega agora à Vila Olímpia no ano em que Djavan completa 50 anos de carreira. É um pedaço de país em cima de um palco.
Escrevo isso com uma urgência que não é retórica. A temporada acaba dia 30 de agosto. Eu embarco pouco depois. Nós dois temos prazo.
Vou passar cinco meses do outro lado do mundo tentando explicar o Brasil para gente que nunca ouviu falar de Maceió. E percebi, sentada naquela poltrona, que a coisa mais brasileira que eu vou levar na mala não é objeto. É repertório. É saber que existe um país capaz de produzir uma obra como a do Djavan e um teatro capaz de devolver essa obra para quem chegou atrasado.
Se você também perdeu o show por agenda, tem duas semanas para se redimir. Vá.
Serviço
Djavan, O Musical: Vidas pra Contar
Teatro Claro Mais SP, Shopping Vila Olímpia, Rua Olimpíadas, 360, 5º piso
Em cartaz até 30 de agosto
Quintas e sextas, 20h. Sábados, 16h e 20h. Domingos, 18h
Ingressos pela Uhuu e na bilheteria do teatro





