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Arte ao Redor Tatiane de Assis é repórter da Veja SP. Acredita que as artes visuais podem aproximar pessoas e descortinar novas facetas da vida.

Lima Duarte critica Bolsonaro e volta a falar sobre Flávio Migliaccio

"Com esse que está aí está difícil", critica o ator veterano, que acaba de ganhar uma exposição no Itaú Cultural

Por Tatiane de Assis 18 nov 2020, 18h29

Com uma exposição em sua homenagem em cartaz no Itaú Cultural, o ator Lima Duarte falou ao blogue ARTE AO REDOR sobre sua carreira. Sobressaem nas respostas do artista a saudade do também ator Flávio Migliaccio, morto em 2020, e a crítica ao governo do presidente Jair Bolsonaro.

“Estou trancado no meu sítio há quatro meses, porque eu tenho 90 anos, tenho medo, sou grupo de risco. Se bem que o homem lá mandou morrer. ‘Todo mundo que passou dos 80 anos, tem que morrer’. Mas eu insisto, eu quero ficar um pouquinho mais. Então, eu fico assistindo às novelas antigas que fiz”, disse o veterano, que acrescentou: “Gosto de ver as novelas antigas, porque, às vezes, tem só eu em cena. O resto é tudo morto. Que Deus os tenham. O Migliaccio também.”

Flavio Migliaccio: companheiro de Lima Duarte desde os tempos de Teatro Arena Divulgação/Divulgação

Ainda sobre o amigo, Lima Duarte recorda: “Nunca me interessei pelos teatros de São Paulo. Eu era um pobre diabo que trabalhava na televisão, ninguém acreditava, todo mundo achava que televisão era uma porcaria. Como diz o Fellini (cineasta italiano), um bom eletrodoméstico. Soube da criação do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), ligado aos barões do café, a elite paulistana de então, feita de italianos e alguns franceses. Em oposição, surgia o Teatro de Arena, que pretendia colocar o brasileiro em cena. O Chico de Assis (dramaturgo brasileiro) que me inventou. Ele disse para o pessoal do Arena: ‘Vocês querem fazer personagem brasileiro? Ninguém sabe fazer como Lima Duarte. Ninguém conhece a alma brasileira como ele. Foram falar comigo e eu disse: ‘Trabalho muito aqui na televisão, não quero saber de teatro, não. Sim, fui com a minha mãe, uns lá no interior, mas era outra coisa. Não quero, não.’ Mas eles não desistiram. O Teatro de Arena foi para frente da Tupi, quase com cartazes, para me buscar, para eu fazer O Testamento Do Cangaçeiro, uma peça do Chico de Assis. Foi muito sucesso. No Teatro de Arena, tinha também o queridíssimo Flávio Migliaccio. Ficamos muito amigos. Ele se dedicava também ao Brasil, à interpretação brasileira. Era um ator brasileiro. O Migliaccio, meu amigo do Arena, brasileirinho que nem eu. Eu entendo porque você fez isso, porque esse país pelo qual nós lutamos…”

A fala reticente do ator tem sentido quando ele rememora os governantes que já estiveram à frente do país e conclui olhando o presente: “Com esse que está aí, está difícil.”

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