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Blog do Lorençato Por Arnaldo Lorençato O editor sênior Arnaldo Lorençato é crítico de restaurantes há 30 anos. De 1992 para cá, fez mais de 15 000 avaliações. Também é autor do Cozinha do Lorençato, um podcast de gastronomia, e do Lorençato em Casa, programa de receitas em vídeo. O jornalista leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Memória: Thrassyvoulos Georgios Petrakis (1918-2016), o seu Trasso, do Acrópoles

Conheço o Acrópoles antes mesmo de começar a escrever sobre gastronomia. Logo depois de chegar em São Paulo no fim de 1982 para estudar jornalismo, comecei a frequentar algumas cantinas do Bixiga que cabiam no meu bolso. Ia também a um restaurante grego que ficava no Bom Retiro, onde morava uma colega de sala de […]

Por Arnaldo Lorençato Atualizado em 26 fev 2017, 11h02 - Publicado em 30 jul 2016, 11h23
Thrassyvoulos Georgios Petrakis: morto com quase 100 anos o dono mais antigo restaurante grego de São Paulo (Foto: Mario Rodrigues)

Thrassyvoulos Georgios Petrakis: morto aos 97 anos o dono mais antigo restaurante grego de São Paulo (Foto: Mario Rodrigues)

Conheço o Acrópoles antes mesmo de começar a escrever sobre gastronomia. Logo depois de chegar em São Paulo no fim de 1982 para estudar jornalismo, comecei a frequentar algumas cantinas do Bixiga que cabiam no meu bolso. Ia também a um restaurante grego que ficava no Bom Retiro, onde morava uma colega de sala de aula. Lembro exatamente da primeira vez que fui com ela ao Acrópoles e de seu proprietário, o seu Trasso, que vim saber depois que tinha um nomão sonoro: Thrassyvoulos Georgios Petrakis.

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O Acrópoles é um restaurante singular e muito em conta. Escolhe-se direto na cozinha, aberta em um janelão. É apontar para os pratos prontos dispostos em assadeiras sobre um fogão para que se mantenham aquecidos. Com apetite de estudantes por novidade e empolgados pelos preços, nessa primeira visita pedimos lula recheada, vinagrete de polvo com muito azeite, carneiro assado e mussaká. Fomos para a mesa do lugar apertado como um refeitório aguardar a comida.

A mussaká: prato mais conhecido da culinária grega

A mussaká: prato mais conhecido do Acrópoles (Foto: Mario Rodrigues)

Tudo chegou ao mesmo tempo e foi depositado sobre a mesa. Antes mesmo que pudessemos pensar que era comida demais, seu Trasso apareceu ao nosso lado e disse com sotaque carregado: “É a primeira vez aqui? Vai sobrar comida. Desta vez, provem mussaká e polvo” e levou os outros pratos para a cozinha.

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Foi a primeira vez que provei mussaká, a torta grega de carne, batata e berinjela. Foi também a primeira vez que encontrei seu Trasso, um corintiano roxo com seu jeito acolhedor de tratar as pessoas. Seu Trasso foi-se ontem, aos 97 anos, vitimado por uma infecção generalizada depois de submeter a uma cirurgia para retirada da vesícula. Seu velório acontecerá na segunda (1º) pela manhã na Igreja Grega do Bom Retiro (Rua Matarazzo, 180).

Seu Trasso deixa saudade para quem costumava vê-lo inabalável na porta do Acrópoles todos os dias com sua gentileza e sorriso franco. Morre o homem que foi o mais importante representante da culinária grega da cidade. Adeus, seu Trasso.

O Acrópoles permanecerá fechado até segunda (1º).

Fachada do Acrópoles: seu Trasso ficava sentado diariamente em uma cadeira na entrada (Foto: Cida Souza)

Fachada do Acrópoles: seu Trasso ficava sentado diariamente em uma cadeira na entrada (Foto: Cida Souza)

Embaixo está o texto que escrevi quando seu Thrassyvoulos Georgios Petrakis foi eleito a personalidade gastronômica do ano por VEJA COMER & BEBER em setembro de 2009:

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Dono do restaurante grego Acrópoles, Thrassyvoulos Georgios Petrakis, conhecido como “Seu Trasso”, veio para São Paulo em 1961. Junto da primeira mulher e da filha recém-nascida, desembarcou na capital depois de quinze dias de viagem de navio. Atendia ao chamado de uma cunhada para tocar o bazar que ela mantinha no Tremembé. Também passou a trabalhar como garçom no Acrópoles, aberto em 1959 por um conterrâneo [Na época, era o Cantinho Grego].

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A vida de Seu Trasso sofreu um terrível abalo em 1969, quando perdeu toda a família em uma tragédia ocorrida numa casa de veraneio em Santos. Desde então, passou a se dedicar integralmente ao restaurante, no qual chegou a gerente, até comprá-lo, no início dos anos 70. “Era um lugar muito simples”, recorda-se. “Fiz várias reformas”.

Salão do restaurante: apertadinho como um refeitório (Foto: Cida Souza)

Salão do restaurante: apertadinho como um refeitório (Foto: Cida Souza)

O endereço cinquentão do Bom Retiro continua de grande simplicidade e muito bem cuidado. Está sempre tinindo de nova a pintura azul e branca das paredes, cores da bandeira da Grécia. Na porta do salão, esbanjando energia aos 91 anos, ele recebe a clientela com um largo sorriso e indica os lugares.

Também apresenta a cozinha aberta, onde são preparados o saboroso mussaká, a lula recheada e o carneiro assado que deram fama à casa. Atento a tudo, ralha com os garçons caso o pão do couvert não chegue à mesa quentinho. Até hoje, encarrega-se das compras. Acompanhado do motorista, chega às 7 da manhã no Mercado Municipal para selecionar os produtos.

Só deixa o Acrópoles quando acaba o movimento do almoço, em geral com a filha Katherine, de 21 anos. Volta ao restaurante no início da noite e permanece lá até a hora de fechar. Ainda encontrou fôlego para abrir, no fim do ano passado, uma filial do Acrópoles nos Jardins [já fechada], tocada pelas filhas Aglaia e Niqui.

Por sua longa contribuição à gastronomia paulistana, o restaurateur Thrassyvoulos Georgios Petrakis recebe de VEJA SÃO PAULO o título de Personalidade Gastronômica do ano.

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Caderno de receitas:
+ Dadinhos de tapioca, do Mocotó
+ Il vero fettuccine Alfredo di Roma
+ Tiramisu original. É  bico!

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