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Blog do Lorençato

Por Arnaldo Lorençato
O editor-executivo Arnaldo Lorençato é crítico de restaurantes há mais de 30 anos. De 1992 para cá, fez mais de 16 000 avaliações. Também é autor do Cozinha do Lorençato, um podcast de gastronomia, e do Lorençato em Casa, programa de receitas em vídeo. O jornalista é professor-doutor e leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie
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“Sem o turismo, temo pelo desemprego”, diz Eudes Assis sobre o Litoral Norte

Um dos primeiros a tomar a linha de frente para amenizar os efeitos danosos das chuvas no Litoral Norte, o chef caiçara já distribuiu mais de 60000 marmitas

Por Arnaldo Lorençato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 10 mar 2023, 10h20 - Publicado em 10 mar 2023, 06h00

Dono do Taioba Gastronomia, em Camburi, e um dos líderes do projeto social Buscapé, sediado em Boiçucanga e voltado a alimentar e a ensinar culinária para crianças, o chef caiçara Eudes Assis, 46, foi um dos primeiros a noticiar o desastre provocado pelas chuvas, considerado uma das maiores catástrofes naturais do país em São Sebastião, no Litoral Norte. Não só isso. Eudes, autodefinido como um empreendedor social, arregaçou as mangas, atraiu voluntários e fez marmitas para desabrigados e desalojados da cidade. O chef calcula ter distribuído cerca de 60 000 refeições, que beneficiaram mais de 10 000 pessoas. Com a ausência do turismo nas praias da região por causa dos riscos de novos deslizamentos, ele tem outra preocupação: “Temo pelo desemprego”.

Como soube da destruição provocada pelas chuvas em São Sebastião?

No sábado de Carnaval, o Taioba deu muito movimento à noite. Tinha uma chuva forte quando voltei para casa. Meu filho foi para uma balada em Maresias. Quando fui ao quarto dele, no domingo de manhã, ele não estava. Eram 7 horas. Peguei o celular e não tinha nem wi-fi nem sinal de 3G. Saí para um café e na rodovia vi um cenário de guerra. Tenho 46 anos, nunca tinha visto nada parecido. Eram casas com água no telhado e carros boiando. Parecia coisa de filme. Cheguei ao centrinho de Camburi com muita dificuldade. Quando consegui sinal no café, a mãe de um amigo do meu filho disse que ele e os colegas tinham ficado em um hotel em Maresias. Fiquei tranquilo com o Leonardo. Nesse café, fiz a primeira postagem dizendo que houve uma catástrofe.

Qual foi seu passo seguinte?

Fui para o Taioba. Queria cozinhar para os desabrigados. Chegando ao restaurante, o salão estava tomado de água, uns 80 centímetros de altura. Precisei de enxada e pá para remover a lama, que invadiu inclusive a câmara fria. Não tinha água nem luz. Não poderia cozinhar ali de jeito nenhum. Meu lado empreendedor social me levou ao Projeto Buscapé, em Boiçucanga. Temos uma cozinha para aulas e outra para preparar a alimentação para as crianças. Quando cheguei ao começo do morro entre Camburi e Boiçucanga, não me deixaram passar. Nesse primeiro dia, o domingo, 18, não consegui cozinhar. No segundo dia, peguei minha bicicleta e pedi aos policiais para atravessar. Foi desesperador ver como ficou a estrada. Havia trechos com meia faixa e o restante era ribanceira para o mar. Cheguei ao Projeto Buscapé e fiz minha segunda postagem. Avisei que estava lá e pedi ajuda para cozinhar para os desabrigados. Cena mais linda. Veio um amigo com um pacote de arroz, outro com um pedaço de carne. Nesse primeiro dia, preparei 1 000 marmitas.

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Quantas pessoas ajudaram a cozinhar no primeiro dia?

Umas quinze pessoas. No segundo dia, a terça-feira, as entregas foram em Boiçucanga, levando comida aos lugares mais inacessíveis. No terceiro dia, conseguíamos chegar a Camburi e Barra do Sahy de moto. Nesse dia, também começaram a vir insumos de barco e de helicóptero, consegui preparar 8 000 marmitas. Apareceram mais de 120 voluntários. Fiz uma escala de três horas para todo mundo ajudar. Nas redes sociais, pedi carne e embalagens. Também pedi leite em fórmula, especial para as crianças que não tomam leite de vaca. No quarto dia, batemos a meta de 10 000 marmitas por dia. A comida foi para desabrigados e desalojados que ficaram em escolas, bem como quem estava em casa e tinha perdido o fogão. Mandamos também para representantes da Defesa Civil e do Exército, bombeiros e as polícias Militar e Municipal. Desde o começo do desastre até agora foram mais de 60 000 marmitas.

Como fez para arrecadar dinheiro no primeiro momento?

Meu filho criou uma vaquinha virtual. Como começou a receber muito dinheiro, colocamos no nome do Projeto Buscapé, que tem pessoas para fazer essa administração. Arrecadamos até agora 1,228 milhão de reais. Arrecadamos essa importância toda porque as pessoas ficaram muito comovidas com esse que é considerado o maior desastre natural do país. As pessoas doaram porque confiam e já temos um projeto social, o Buscapé, que faz bom uso do dinheiro arrecadado no arraial gastronômico que, neste ano, vai para a 11ª edição. E a gente vê um Brasil dividido por conta da política, da religião. Mas o brasileiro é muito generoso e solidário em situações como esta.

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Como está a situação atualmente?

Agora que a grande maioria das pessoas voltou para suas casas e está recebendo água e cestas básicas, não mandamos mais marmitas. Atendemos só as famílias que estão desabrigadas, os profissionais da linha de frente e as pessoas que trabalham nos polos de doação. O projeto como um todo virou um grande centro de recebimento e distribuição de cestas básicas, água mineral (a água dos rios está contaminada), materiais de higiene e limpeza, colchões, leite, roupas, ração para animais… Criamos uma comissão de líderes comunitários do litoral que inclui um religioso, um representante do centro espírita, dois médicos, uma assistente social, uma diretora de escola e uma conselheira tutelar. Para atender a solicitações dos moradores para fazer reparo da rua, religamento de luz, abastecimento de água, fazemos três orçamentos. E nunca entregamos diretamente o dinheiro, que vai para a conta de outra pessoa jurídica. As pessoas que ficaram sem casa estão hoje em hotéis ou pousadas custeados pelo governo. O que mais o preocupa hoje? O prefeito de São Sebastião pediu para as pessoas não descerem para cá porque ainda há o risco de deslizamento, como alerta a Defesa Civil. Como não tem turismo e não há previsão de quando vai voltar, não está girando a economia. No dia em que o Taioba reabriu, não tive uma mesa ocupada. Agora, o movimento está muito abaixo do normal. E meu restaurante é conhecido por ter fila de espera. Isso nunca aconteceu. Não é só comigo. É com todo mundo. Temo pelo desemprego. Se não houver o respaldo da prefeitura e do estado, muita gente terá de ser dispensada.

Por que foi um dos primeiros a tomar a linha de frente para ajudar?

Porque sou empreendedor social de gastronomia. A gastronomia transformou minha vida, viajei para outros países, trabalhei fora. Mas era da área de risco. Tive minha casa invadida pelas águas. Vi minha mãe perder geladeira. Nunca vou me esquecer de onde vim. Tenho uma sensação de pertencimento a esse lugar. Quando entrego as cestas básicas, a maioria das pessoas é de amigos de infância. Escolhi essa profissão maravilhosa que me permite ajudar as pessoas.

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Publicado em VEJA São Paulo de 15 de março de 2022, edição nº 2832

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