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Exclusivo: marginais registram um acidente a cada seis horas

Aumento nos desastres com vítimas é de 30%; levantamento realizado por VEJA SÃO PAULO com dados da PM mostra qual é o trecho mais perigoso

Por Sérgio Quintella Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Adriana Farias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 15 dez 2017, 06h00 - Publicado em 15 dez 2017, 06h00

Por volta das 23 horas de 7 de abril, uma sexta-feira, o analista financeiro Ronaldo Lima, de 30 anos, enviou uma mensagem pelo celular à mãe, a copeira Natalina Lima, avisando que logo chegaria em casa, no Parque Independência, na Zona Sul. Pediu também que ela não se esquecesse de tomar o remédio contra a pressão alta. Duas horas depois, Natalina recebeu uma chamada. Do outro lado da linha, um policial informava que Roni, como o rapaz era conhecido na família, havia sofrido um acidente com sua moto, uma Honda Twister 2007, na cabeceira da Ponte Itapaiúna, na Marginal Pinheiros, no Panamby.

“Na hora me assustei, mas achei que fosse algo sem gravidade”, lembra. Foi apenas ao chegar ao destino que a ficha caiu. “Vi o corpo coberto por um plástico, e meu mundo desabou.” No local, PMs afirmaram que, segundo testemunhas, o motorista do carro envolvido na batida havia fugido sem prestar socorro. Como ninguém anotou o número da placa, o caso jamais foi investigado. “Nunca saberei como meu filho morreu.”

A morte de Roni ocorreu no ponto mais problemático das marginais Tietê e Pinheiros. Entre janeiro e novembro, 140 acidentes com vítimas foram registrados em um intervalo de 4,5 quilômetros entre as pontes Estaiada e João Dias, no sentido Interlagos. Isso dá uma média de três por semana, o que representa um salto de 80% em relação a 2016.  Nenhum outro trecho com a mesma extensão nas duas vias mais importantes da capital concentrou tantas colisões.

O corpo de Ronaldo Lima, morto em abril (Edison Temoteo/Futura Press/Veja SP)

Um dos fatores que explicam o problema está ligado ao surgimento de duas pontes na região, a Laguna e a Itapaiúna, a partir de maio do ano passado. Elas criaram um emaranhado de tráfego, formado pelos motoristas que saem da Avenida Dona Helena Pereira de Moraes, ao lado do Parque Burle Marx, e cortam cinco faixas de rolamento para pegar a direção oposta da Pinheiros, passando sobre a Itapaiúna.

“O acesso ainda fica muito próximo da Ponte João Dias, o que amplia esse entrelaçamento de pistas”, observa o engenheiro de trânsito Horácio Augusto Figueira. “É muito carro espremido no mesmo lugar, cortando a frente um do outro para chegar a destinos diferentes.”

Nada menos que 92% dos acidentes por ali envolvem motos, geralmente atingidas por automóveis no momento da troca de faixa. Se não bastasse, nesse trecho da marginal não há pista local, só expressa (com quatro a seis faixas, dependendo do ponto), o que afunila ainda mais o trânsito.

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As questões de segurança relacionadas às marginais são tema de debates calorosos desde julho de 2015, quando Fernando Haddad reduziu os limites de velocidade nessas áreas. Na campanha eleitoral de 2016, João Doria prometeu rever a política, e assim o fez em janeiro, poucas semanas depois de assumir a prefeitura — e recolocou as placas de 90 e de 70 quilômetros por hora nas pistas expressas e locais, respectivamente.

Trombada de caminhões na tietê: os casos com veículos do tipo cresceram 14% na via (Newton Menezes/Futura Press/Veja SP)

De lá para cá, foi registrado nas vias o recorde de acidentes com vítimas dos últimos quatro anos. Até novembro, foram 1 449 ocorrências na Pinheiros e na Tietê (com 29 mortes), contra 1 218 em todo o ano passado (26).

Os dados exclusivos foram compilados por VEJA SÃO PAULO com base em 5 000 boletins produzidos pela Polícia Militar entre 2014 e 2017 e obtidos via Lei de Acesso à Informação. Trata-se de uma média de 130 desastres por mês, 30% mais que em 2016. A aceleração recente nos números ainda freou uma tendência de queda ocorrida após a mudança de Haddad. Em 2016, as colisões graves diminuíram 6%.

A alta nos índices ajudou a consolidar as marginais como as pistas mais perigosas de São Paulo. Houve cinco acidentes a cada 1 milhão de veículos que circularam por ali em 2017. É o dobro do registrado na Radial Leste e cinco vezes mais que a média da Avenida 23 de Maio. “Se a velocidade máxima nas marginais fosse mantida em 70 quilômetros por hora, boa parte dessas batidas não teria ocorrido”, entende o engenheiro de trânsito Sergio Ejzenberg.

A prefeitura pensa diferente. Pelas contas da CET, houve 299 acidentes com vítimas nas marginais entre janeiro e agosto, segundo as estatísticas mais recentes da companhia. Isso significa uma queda de 14% em relação ao mesmo período de 2016, na comparação com a mesma base de dados. Ou seja, para a administração municipal, as duas vias se tornaram mais seguras de um ano para cá.

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Motociclista atropelado, em maio: 140 desastres graves registrados em 2017 na região do Panamby (Rubens Cavallari/Folhapress/Veja SP)

A discrepante diferença destes números para os da PM se dá pela forma como os dados dos dois órgãos são computados. Quase sempre presentes no momento das batidas, os policiais militares produzem no local o chamado “boletim operacional”, usado como base para suas estatísticas. Já a CET se apoia quase que exclusivamente nos boletins de ocorrência (B.O.s) lavrados posteriormente pela Polícia Civil.

O problema é que nem todas as vítimas se dirigem depois a uma delegacia. De acordo com informações dos próprios registros da PM, cerca de 80% dos acidentados afirmam que não pretendem formalizar um B.O.

Outro ponto de discordância é a inclusão de choques ocorridos nas alças de acesso e sobre as pontes. Para a PM, isso entra na contagem das marginais. Para a prefeitura, não. Em 2017, 11% dos casos se enquadraram nesse critério. “Nossa forma de compilar os dados é a mesma desde 1979, não faz sentido mudá-la”, defende o presidente da CET, João Octaviano Machado Neto. “Os boletins da PM são inconstantes, não é sempre que um agente está lá para anotar.” A corporação não quis se pronunciar a respeito dessas declarações.

Para especialistas, não há dúvida de que o trabalho da PM é muito mais preciso e abrangente. “A CET seria mais transparente se utilizasse todos os dados disponíveis”, diz Creso de Franco Peixoto, professor de engenharia da FEI.

Trombada de caminhões na Tietê: os casos com veículos do tipo cresceram 14% na via (Newton Menezes/Futura Press/Veja SP)

Independentemente da metodologia usada para mensurar o total de desastres, as zonas mais perigosas das marginais não costumam variar muito. Outro ponto crítico fica perto do trecho campeão, do lado oposto do Rio Pinheiros, no sentido Castello Branco. Neste ano, a PM registrou por ali setenta ocorrências, contra 45 em 2016 — uma elevação de 55%. No sentido Interlagos, uma área complicada é a de 6 quilômetros entre o Cebolão e a Ponte Cidade Universitária, com 104 casos. Parte desse percurso não possui divisão entre pista expressa e local.

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(Arte/Veja SP)

“Mais de cinco faixas sem segregação propicia conflitos”, afirma Adauto Martinez Filho, ex-diretor da CET. Na Tietê, os dois pontos mais problemáticos ficam próximo da Rodovia Presidente Dutra. No sentido Castello Branco, os piores locais estão concentrados a partir do acesso à Rodovia Fernão Dias, com 41 acidentes em 4 quilômetros. No lado oposto, da Ponte das Bandeiras em diante, foram computadas 134 batidas em 5 quilômetros.

Apesar das características particulares de cada região — como o fato de algumas contarem com mais faixas —, há um ponto em comum nos acidentes registrados ao longo dos 47 quilômetros das duas marginais. Em 75% dos casos, houve participação de motos. Isso mesmo levando em conta que esse tipo de veículo está proibido de circular em parte das vias. Na pista expressa da Tietê, por exemplo, as motos são vetadas. Ainda assim, por ali se envolveram em 63 ocorrências.

Santos, com a mulher, Girleide: dez dias sem trabalhar e 3 000 reais de prejuízo após a queda (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Ao contrário do que muitos imaginam, baseando-se no comportamento imprudente de maior parte da turma, os motoboys são a minoria entre as vítimas. Cerca de 95% dos motociclistas acidentados tinham outras profissões. “Um carro que estava acima da velocidade cortou a minha frente e eu caí”, conta o auxiliar de gerência Edilson dos Santos, sobre uma queda em julho. “Eu estava com minha mulher na garupa, e por sorte não sofremos ferimentos graves”, completa ele, que passou dez dias sem trabalhar por causa de uma fratura na mão e gastou 3 000 reais para consertar sua Honda CG 2015.

A relativa falta de experiência na condução, no caso de boa parte dos “motociclistas civis”, é um dos motivos que ajudam a explicar o alto índice de choques dos veículos de duas rodas. “O trânsito parou, um rapaz de moto perdeu o controle e caiu para o lado, colidindo com o meu carro”, relata o escriturário Julio Cesar Queiros, dono de um Ford Fiesta 2009, sobre um episódio ocorrido em fevereiro. “Os próprios motoboys que pararam para ajudar disseram que a vítima foi inexperiente e não soube dosar o freio.”

Há ainda outros fatores nessa equação, como a má qualidade do asfalto, a alta presença de caminhões (as colisões com os veículos de carga pesada cresceram 14% na Tietê), a irresponsabilidade de motoristas de automóveis e o péssimo estado das motos. A PM realizou 1 122 operações em 2017 nas duas marginais, com a aplicação de 22 869 multas e a apreensão de 3 430 veículos. Mas a fiscalização ainda é pouca diante do tamanho do problema.

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Veículos doados pela iniciativa privada usados em ações nas marginais: quarenta unidades, entre carros, motos e ambulâncias (Heloísa Ballarini/Secom/Veja SP)

A CET não descarta a possibilidade de proibir a circulação das motocicletas em toda a extensão das marginais, em qualquer horário do dia. “Seria uma ação extrema, se outras não funcionarem”, diz o presidente João Octaviano. Para quem vive do trabalho sobre duas rodas, a medida não vai resolver a questão. “É um tiro no pé, só vamos transferir o problema para outro local”, diz o presidente do sindicato dos motociclistas, Gilberto Almeida. “O fundamental é melhorar a sinalização no solo e limitar a velocidade das motos.”

No período em que revogou a política de Haddad, João Doria anunciou que faria também uma série de intervenções para melhorar a segurança dessas vias. “A população vai perceber a quantidade de serviços, iniciativas, equipamentos, tecnologia e vigilância”, afirmou o prefeito. Até agora, essa revolução não ocorreu.

Quase um ano após a posse do tucano, os camelôs permanecem nas vias, sobretudo na Tietê, ao contrário da promessa da prefeitura de uma fiscalização mais rigorosa para tirar os ambulantes das pistas. Em nota, a gestão municipal diz que apreendeu 50 000 mercadorias entre fevereiro e novembro.

Ambulantes circulando pela Tietê: a prefeitura diz ter apreendido 50 000 mercadorias neste ano (Aloisio Mauricio/FotoArena/Veja SP)

Os 36 painéis de mensagens eletrônicas são os mesmos da gestão anterior. As novidades são os quarenta carros, motos e ambulâncias doados pela iniciativa privada. O número de agentes nas duas vias aumentou 70%, chegando aos atuais 75. “Estamos conseguindo atender às ocorrências com mais rapidez”, afirma João Octaviano. Por enquanto, ninguém da prefeitura cogita mexer nos atuais limites de velocidade das marginais.

PROMESSA DE CAMPANHA

As ações de Doria nas marginais

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Doria, com colete da CET: o número de marronzinhos aumentou 70% (Aloisio Mauricio/Fotoarena/Veja SP)

Ambulantes. O prefeito disse que iria acabar com os vendedores das pistas e afirma ter apreendido 50 000 mercadorias neste ano, mas eles continuam atuando, principalmente na Marginal Tietê.

Marronzinhos. O número de agentes aumentou quase 70% neste ano, chegando a um total de 75, e eles passaram a contar com 150 radiocomunicadores.

Painéis. A ideia era instalar várias placas digitais, mas os 36 equipamentos atuais em operação são os mesmos da gestão passada.

Veículos. Para intensificar a atuação da CET, a gestão recebeu a doação de quarenta veículos, como caminhonetes, motos e ambulâncias.

 

O MAPA DAS OCORRÊNCIAS

A distribuição dos pontos dos acidentes com vítimas registrados neste ano ao longo dos 47 quilômetros das duas marginais

(Arte/Veja SP)

 

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