Criada na Vila Matilde, Letícia Bufoni é a nova fera do skate mundial

Criada na Zona Leste, a paulistana de 25 anos virou referência no esporte e está de olho em uma vaga na Olimpíada de 2020, em Tóquio

Aos 9 anos, a paulistana Letícia Bufoni começou a tomar gosto pelo skate quando deslizava pelas ruas da Vila Matilde, na Zona Leste da capital. Sempre acompanhada dos meninos do bairro, ela trocou a paixão pelo futebol por rodinhas. “Antes, sonhava em me tornar jogadora profissional”, lembra a moça, que chegou a ser selecionada em uma peneira para atuar no time feminino do Juventus, na Mooca.

Enquanto a mãe, a aposentada Claudete Bufoni, apoiou a ideia, o pai, o autônomo Jaime José da Silva, torceu o nariz para o novo hobby. “Ele via o esporte como coisa ‘de moleque’. Chegou a quebrar meu skate”, conta. A resistência durou pouco. Logo a menina passou a esbanjar talento, e não teve jeito de segurá-la. Hoje, aos 25 anos, ela figura no rol dos melhores skatistas do mundo e coleciona títulos importantes, como as três medalhas de ouro nos X Games, espécie de Olimpíada dos esportes radicais.

Aos 11 anos, Letícia iniciou sua participação em campeonatos. Consagrou-se vencedora em circuitos estaduais e nacionais. Aos 14, suas habilidades se mostraram suficientes para estrear nos X Games. Apesar do oitavo lugar na prova, abocanhou a oportunidade de fixar residência nos Estados Unidos, reduto das principais competições do skatismo, ao conseguir patrocínios por lá. A adaptação à nova rotina chegou aos poucos. “Nunca tinha ido até a esquina sozinha”, lembra ela, sob a responsabilidade de uma guardiã no exterior.

Com o troféu de segundo lugar: três ouros nos X Games

Com o troféu de segundo lugar: três ouros nos X Games (Pablo Vaz/Divulgação)

Doze anos depois, ela coleciona troféus. Em 2015, fez história ao levar a primeira edição feminina do Street League, o principal torneio mundial do street, modalidade que incorpora obstáculos em uma pista. O título apareceu em um momento oportuno. “Era criticada por participar de projetos fora do esporte”, diz. Com 1,60 metro e 50 quilos, a bela, que é vegana, virou referência no mundo fitness. Realizou ensaios sensuais para revistas como a americana Men’s Health e recheia com fotos do corpo enxuto seu Instagram, onde é seguida por mais de 2,3 milhões de pessoas — virou uma das personalidades femininas mais influentes do time de atletas da Nike nas redes sociais, de acordo com a plataforma de análise de patrocínios Hookit (em engajamentos, fica acima de figuronas do naipe da tenista Serena Williams). Além disso, é amiga de outros membros da elite esportiva brasileira, como o surfista Gabriel Medina e o jogador de futebol Neymar. Em 2015, ganhou um reality show no canal pago Off, o Leticia Let’s Go, que acompanha seu dia a dia e está na terceira temporada. “O skate nunca ficou em segundo plano na minha vida”, garante.

Em janeiro, no campeonato Street League, no Rio

Em janeiro, no campeonato Street League, no Rio (Pablo Vaz/Divulgação)

Com todo o sucesso, um de seus orgulhos consiste em ser uma referência para que outras garotas pratiquem o esporte, até pouco tempo atrás marcado apenas por ídolos homens. “Fico muito feliz quando conheço meninas que começaram a andar de skate por minha causa”, comemora. Apesar da casa em Los Angeles, onde mora desde a adolescência, passa mais tempo viajando. Volta periodicamente para São Paulo, onde a família tem casa, no Tatuapé. Gosta de passear pelo litoral, em cidades como Guarujá. Embora seja jovem, a idade da atleta começa a pesar devido à atividade de alto impacto. Atualmente, para cada três dias de treino, ela precisa descansar dois. Depois de conquistar títulos nos principais torneios da área, Letícia quer mais: participar da Olimpíada de Tóquio em 2020, quando o skate estreia na competição. A resposta só vem em junho do ano que vem: “Só vou sossegar quando ouvir a notícia de que vou competir”.

Visita à casa dos pais, no Tatuapé: ela mora em Los Angeles

Visita à casa dos pais, no Tatuapé: ela mora em Los Angeles (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Corintiana e “tiazinha”

O que gosta de ouvir? > Sou bem eclética. Se vou treinar, escolho trap para me concentrar. Ouço artistas como Drake, Fetty Wap e Post Malone.

Time do coração > Torço desde pequena para o Corinthians, assim como toda a minha família.

É fã de séries? > Sou muito tiazinha. Quando viajo, prefiro ficar no hotel, pedir comida e assistir à Netflix. Estou na segunda temporada de The Sinner.

Está namorando? > Estou solteira. Pode divulgar essa informação (risos)!

Qual o seu filme favorito? > Adoro Finalmente 18 (2013; de Jon Lucas e Scott Moore).

Onde aprendeu a andar de skate? > Quando eu era criança, havia uma pista da Central Surf no Shopping Aricanduva, na Zona Leste.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 10 de abril de 2019, edição nº 2629.

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