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O sacolão hipster

Por Matthew Shirts 9 out 2015, 20h16 | Atualizado em 5 dez 2016, 11h59
Crônica - Matthew Shirts - 2447
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“Precisamos ir ao sacolão hipster”, me diz uma amiga, na semana passada, com uma ponta indisfarçável de entusiasmo na voz. Concordo no ato. Sou entusiasta de mercados e feiras e sacolões em geral. Se não bastasse, após um longo período com o pé atrás, cheguei à conclusão de que os chamados hipsters são interessantes, também.

O mundo é melhor com eles, resolvi, sem que ninguém me perguntasse. O que me atrai no seu jeito estiloso de ser não são as barbas enormes, nem os bigodes irônicos, tampouco as tatuagens: é a curadoria histórica. Essa turma recupera tecnologias, modas e estéticas do passado, como bicicletas, vidros de compota caseira, discos de vinil e, sobretudo, áreas urbanas antes sub aproveitadas. O que era velho se torna “vintage” ou “old school” ou “clássico”, se preferir. Com isso, o grupo, que parece existir ao redor do planeta, consegue pôr em questão, por vezes de forma estilosa, a marcha cega do “progresso”.

Caso eu fosse mais jovem, talvez tentasse ser um hipster, penso, enquanto descemos a Rua Abolição em direção ao sacolão ali no bairro da Bela Vista, nas redondezas do Bixiga. Hoje, não dá mais para aderir à onda dos modernos. Já sou “vintage”. Seria redundante me tornar hipster, se é que você me entende. Já passou da hora.

O endereço fica em frente ao Teatro Oficina, aquele do Zé Celso Martinez. Os hipsters gostam da região, parece; moram por ali e fazem compras no sacolão, daí a brincadeira. O que minha amiga quer me mostrar, na verdade, é um restaurante que fica ao lado do mercado, chamado Box 62, famoso pelas coxinhas, entre outras iguarias.

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Ao chegar à Rua Jaceguai, número 557, é tudo melhor do que o esperado. O lugar é mesmo exótico, inusitado. Instalados ali debaixo de um viaduto da Radial Leste se encontram um sacolão, uma loja de queijos, outra de pastel, uma de caldo de cana, um açougue jeitoso e o pequeno e tremendamente simpático Box 62.

Existe isso em outro lugar do mundo? Montam mercadinhos de comida debaixo de viadutos movimentados de automóveis em outras cidades? Quero afirmar para minha amiga que isso é próprio de São Paulo, que isso só existe aqui, mas recuo diante de um potencial erro bairrista. Como é que nunca vim aqui antes, meu Deus?

O ponto é charmoso demais. Como as coxinhas ali nas mesas de madeira sobre o concreto, nos sabores de shimeji e bacalhau, moqueca, arroz-doce e manjar branco, tudo isso regado a mate gelado e suco de caju. É muito bom, tudo. E não é caro. Durante a refeição descubro que a dona do Box62, Mara Rasmussen Azenha, é amiga do meu chapa Reinaldo Moraes, aquele mesmo, autor do romance Pornopopéia. Então é desse lugar que o escritor não para de falar.

São Paulo consegue ser enorme e íntima ao mesmo tempo. Deve ser a menor megalópole do mundo. Aonde quer que eu vá, encontro amigos dos amigos.

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