“25 de Março gospel”, no centro, tem comércios voltados aos evangélicos

Com ofertas que vão desde púlpitos iluminados com LED até kits da Santa Ceia, a Rua Conde de Sarzedas conquista fiéis

Quando visita a Rua Conde de Sarzedas, o freguês é cativado não só pelo tratamento acolhedor dado pelos vendedores (todo mundo é chamado de “irmão”), mas, sobretudo, pelas vitrines. O pedaço, a poucos metros da Catedral da Sé, um dos maiores símbolos católicos de São Paulo, ganhou fama entre os evangélicos graças à chegada da Igreja Pentecostal Deus É Amor, em 1970, provocando um boom de lojas.

Em seus tempos áureos, na década de 90, a área chegou a ter mais de setenta estabelecimentos ao longo de seus 500 metros de extensão. Agora, mesmo com a generalizada crise do varejo, ainda resistem 28 endereços, responsáveis por atrair um público de 5 000 pessoas por dia. Só nos últimos dez anos, São Paulo ganhou 1 milhão de cristãos evangélicos, o que corresponde a onze novos convertidos por hora.

Shopping a céu aberto: a Rua Conde de Sarzedas, perto da Sé, conta com 28 estabelecimentos comerciais

Shopping a céu aberto: a Rua Conde de Sarzedas, perto da Sé, conta com 28 estabelecimentos comerciais (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Como na 25 de Março, parte da clientela vai encher suas sacolas para revender ou distribuir os produtos por templos país afora. Os fiéis compradores vêm de todo canto da cidade (de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 22% da população declara-se evangélica) e também de fora dela. “Já entregamos móveis de sul a norte do país”, afirma Caique Misael, da fabricante LJ Púlpitos. Os itens custam de 300 a 3 300 reais. “Hoje os mais procurados são os que tem luz de Led, mas a preferência varia muito de acordo com o gosto e a necessidade de cada cliente para a sua igreja”, completa Misael.

Lojas de costumes para pastores (o conjunto que inclui camisa, gravata, abotoaduras, cinto e sapatos pode ser encontrado por 600 reais) e outras roupas, principalmente masculinas, dividem espaço com estabelecimentos focados em itens mais chamativos — que despertam a curiosidade mesmo dos pouco familiarizados com os evangelhos. Na Galeria Genebra, a Arca da Aliança, baú que guardava os dez mandamentos, ganha majestosas versões brancas ou douradas, usadas como tribuna nas igrejas evangélicas. Cada uma sai pelo preço de 3 500 reais.

“No mês passado, vendemos três, totalizando 10 500 reais só com esse produto”, diz a gerente Edilaine Alves da Silva. “Neste ano, estamos faturando 180 000 reais por mês”, afirma Edilaine. Não faltam, porém, comparações com o passado, de receitas mais polpudas. “Antes, o faturamento era sempre acima de 250 000 reais.” em tempos de crise, itens mais baratos têm melhor saída. em maio, a loja comercializou 5 000 Bíblias, best-seller por lá, cujo preço varia entre 10 e 200 reais. de passagem pelo centro, a professora mineira Maria Antonia dias foi à Conde de Sarzedas para comprar um exemplar. depois de muita consulta, encontrou o que procurava. “Queria uma da minha denominação, a presbiteriana. e que tivesse letras grandes. Achei”, conta Maria Antonia, moradora de Lambari.

Loja voltada apenas à venda de púlpitos, alguns turbinados com luz de LED

Loja voltada apenas à venda de púlpitos, alguns turbinados com luz de LED (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Itens que simulam os ingredientes principais da Santa Ceia também têm demanda alta. São cachos de uvas de mentirinha (alguns bastante realistas) e pães de plástico usados para homenagear os últimos momentos de Jesus com seus discípulos. O preço de cada objeto pode variar de 10 a 150 reais. A aposentada Irani do Carmo Silva gastou 87 reais no “kit ceia” que levará para a Igreja do Evangelho Quadrangular que frequenta na Freguesia do Ó. “Já tentamos produtos naturais. Mas, além de se estragarem, eram bem mais caros”, afirma Irani.

Uma das lojas mais antigas do pedaço é a Recanto dos Evangélicos, situada no número 204. Fundada em 1978, a RDE iniciou suas operações como gravadora de discos, mas teve de se adaptar aos novos tempos. O CD físico, agora, só tem servido para tocar música ambiente da própria loja (na visita da reportagem, Ressuscita-me, da cantora Aline Barros, animava a compra de dois clientes, que escolhiam Bíblias). Dona da RDE, Dezuíta Dias da Silva baixou radicalmente o preço do item para tentar liberar espaço nas estantes. “Devemos ter 1 milhão de discos no nosso estoque”, calcula Dezuíta. Chaveiros, canecas com mensagens religiosas e outros suvenires também estão à disposição.

Na vizinhança: palacete de 1891 e a sede do Tribunal de Justiça paulista

Na vizinhança: palacete de 1891 e a sede do Tribunal de Justiça paulista (Alexandre Batibugli/Veja SP)

Antes de virar “a 25 de Março dos evangélicos”, a Conde de Sarzedas se destacava das demais ruas da região por abrigar um palacete, de pé até hoje. O prédio onde atualmente funciona o centro cultural do Tribunal de Justiça foi construído por volta de 1891, a pedido de Luís de Lorena Rodrigues Ferreira, parente do conde de Sarzedas. O edifício, com vitrais franceses e lustres importados, foi um presente dele a sua futura esposa, a jovem francesa Marie Louise Belanger, e ficou conhecido como “castelinho do amor”. Entre engravatados frequentadores do tribunal e engravatados clientes das lojas, são todos irmãos.

 (VejaSP/Veja SP)

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 24 de julho de 2019, edição nº 2644.

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