Ator Ricardo Rathsam recomenda série mexicana de humor ácido

"Temas recorrentes em novelas, como infidelidade, aparecem ao lado de outros difíceis de ser discutidos, caso de suicídio e transexualidade"

Embora a comédia encontre facilidade para o sucesso pelo caráter popular, é muito comum vê-la desvalorizada. E me dei conta de que até mesmo por mim. Escrevo e atuo em textos de humor, mas não sou um consumidor do gênero na TV. Várias opções rondaram minha cabeça ao ser questionado sobre qual seriado recomendaria nesta seção. Gostei tanto de Dexter que visitei o prédio que servia de locação para a casa do personagem, em Bay Harbor, na Flórida. Tenho caneca e ímãs de geladeira de Game of Thrones, camisetas de Breaking Bad, bonecos de Westworld e DVDs de Homeland e The Good Wife. Nenhum deles é uma comédia.

Encontro aqui um ótimo espaço para aliviar essa culpa, e escolhi a hilária série mexicana A Casa das Flores, que estreou em agosto. Criada, produzida e dirigida por Manolo Caro, de 33 anos, ela traz uma estética kitsch e, às vezes, trash, um humor ácido e transgressor, que podem facilmente remeter a Pedro Almodóvar. Seria injusto, porém, tratar Caro como uma nova versão do cineasta espanhol. É um jovem de estilo próprio e aclamado em seu país. A Casa das Flores possui um roteiro criativo e imprevisível. Temas recorrentes em novelas, como infidelidade, aparecem ao lado de outros difíceis de ser discutidos, caso de suicídio e transexualidade, tratados com inteligência e certa leveza.

A primeira temporada tem treze episódios, com trinta minutos cada um e ótimos atores. Não há um núcleo ou uma trama que seja a “barriga” da história, aquela parte chata, que soa dispensável. Segredos são apresentados e revelados rapidamente, dramas e paixões surgem e são descartados com facilidade. Uma curiosidade pode passar batido, principalmente entre os maratonistas de séries. Cada capítulo tem o nome de uma flor. Narciso simboliza a mentira, Orquídea significa luxúria e Crisântemo é a dor.

A atriz e apresentadora Verónica Castro, sucesso nos anos 80 com a novela Os Ricos Também Choram, exibida no Brasil pelo SBT, encabeça o elenco. Ela é Virginia, a matriarca dos De la Mora, dona de uma floricultura, que precisa se reinventar diante do fracasso do casamento e do seu negócio. Entre seus filhos, Paulina De la Mora (vivida pela excelente Cecilia Suárez) é o acontecimento do seriado. A personagem, viciada em remédios, carrega um tom excepcional a cada frase. É impossível não rir e até sentir vontade de imitá-la.

O objetivo desesperado de Virginia é fazer com que seus parentes, doidos e inconsequentes, aparentem ser uma família perfeita. O maior dos trunfos ela tem. É inegável que todos se amam. E, assim, A Casa das Flores não deixa de ser a tradução perfeita de família, um grupo unido pelo amor incondicional e por eternas brigas. Não é mesmo?

> A Casa das Flores está disponível na Netflix.

 

Ricardo Rathsam é ator, autor e está na peça Teatro para Quem Não Gosta

Ricardo Rathsam é ator, autor e está na peça Teatro para Quem Não Gosta (Luciana Rathsam/Divulgação)

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