“A paternidade é uma revolução dos afetos”, diz o psicólogo Daniel Costa Lima
O pesquisador sobre masculinidade defende que os pais devem se engajar na luta feminista e demonstra preocupação com o avanço de movimentos como o red pill
Daniel Costa Lima, 48, começou a pensar sobre paternidade muito antes de se tornar pai. Aos 21 anos, ainda estudante de psicologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ingressou no Instituto Papai, organização pioneira dedicada a discutir paternidade, masculinidades e feminismo. A experiência definiu o rumo de uma carreira voltada ao tema. “Antes, nunca tinha nem pensado nisso. Nem eu nem ninguém. Essa conversa sobre o engajamento dos homens na pauta da equidade de gênero vem borbulhando agora. Quando comecei, pouco se falava sobre o assunto”, afirma o terapeuta, mestre em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde pesquisou sobre violência doméstica.
Mais de duas décadas depois, ele divide seu tempo entre palestras, pesquisas, consultório e a criação dos três filhos — Francisco, de 9 anos, e os gêmeos Luís e Caetano, de 6. Especialista em masculinidades, diz que foi a experiência concreta de cuidar das crianças que o fez compreender a paternidade para além da teoria. “A primeira vez que me senti pai foi quando coloquei meu filho para dormir no colo”, afirma.
Em entrevista à Vejinha, ele defende o exercício da paternidade como uma ferramenta de equidade de gênero, baseada na divisão do trabalho de cuidado, no letramento emocional e na superação dos modelos tradicionais de masculinidade.
Você costuma defender a ideia de uma paternidade equitativa. Como a definiria?
É uma paternidade entendida como uma ferramenta de equidade de gênero. Ela busca uma forma de criar as crianças que traga impacto não apenas para elas, mas também para nós e para as nossas companheiras ou ex-companheiras. As mulheres vivem uma situação de pobreza de tempo que, em grande parte, é causada por nós, homens, porque não contribuímos o suficiente em casa, nas tarefas domésticas e no cuidado com as crianças. É uma questão de justiça. Basta ter um olhar empático para compreender isso. Para mim, a primeira coisa que está em jogo para os homens é justamente a empatia. Hoje, ela é direcionada sobretudo a outros homens; temos um impulso de defender homens que mal conhecemos, mas não fazemos o mesmo com as mulheres.
E quais são os impactos nos próprios homens dessa maior participação no cotidiano das crianças?
Tem algo muito errado com a masculinidade hoje em dia e, para mim, a paternidade é a principal forma de começarmos a mudar, porque ela é uma revolução dos afetos. As mulheres fizeram revolução para fora, para a rua, para a política, para o trabalho remunerado. A nossa revolução é outra, é uma revolução que tem que ser para dentro — do ambiente doméstico, da convivência familiar e das nossas emoções. Ela tem esse potencial de servir como um letramento emocional. Além disso, existem estudos que falam do impacto direto na saúde dos homens, que passam a se alimentar melhor, a cuidar da própria saúde de forma preventiva, a diminuir o consumo de drogas e a se exercitar mais. Isso porque, se temos um vínculo forte com nossos filhos, queremos estar bem no futuro, estar mais tempo com eles, para vê-los crescer.
Suas pesquisas em alguma medida influenciaram a forma como você exerce a sua paternidade?
É engraçado, porque eu era um especialista em paternidade muito antes de ser pai, de sequer ter esse desejo. Houve até uma época em que achei que não ia ter filhos. Eu pensava sobre paternidade e nunca sobre o que é ser pai. Não sabia trocar uma fralda, colocar uma criança para dormir, por exemplo. Aprendi fazendo. Por isso, não sei se ler sobre paternidade me ensinou a ser um bom pai. Acho que me ensinou a ser um homem melhor, e se isso reverbera em como eu sou pai, ótimo.
Como você avalia a Lei nº 15.371/2026, sancionada em abril, que amplia o período de afastamento da licença-paternidade gradualmente para vinte dias ao longo dos próximos três anos?
Eu continuo achando que a quantidade de dias é muito pequena. Mas, obviamente, é melhor do que cinco dias (período de afastamento em vigor atualmente). Mas grande parte da população brasileira está na informalidade, vive na necessidade do dinheiro que ganha no dia a dia, então, de qualquer forma, não vai ter acesso a isso. A lei ajuda, mas não resolve.
E o que resolveria?
Resolveria se tivesse uma possibilidade de esse trabalhador informal, por exemplo, ganhar algum recurso, um salário mínimo que fosse, para que ele pudesse estar em casa durante esses vinte dias e não precisasse ir trabalhar. Agora, o ideal seria termos a licença parental compartilhada (modelo em que pais e mães podem decidir a divisão do período de afastamento entre eles), como em vários outros países do mundo, o que é mais favorável a essa ideia da equidade de gênero. Na Suécia, além do período que pode ser compartilhado (390 dias), os homens têm noventa dias de licença. Eles não são obrigados a tirar, mas, se não quiserem usar, esses três meses não vão para as mulheres. O que se vê lá é que os homens vão, de fato, aprendendo a ser pais, para que quando a mulher volte a trabalhar, ela não seja mais a cuidadora exclusiva da criança, que tenha um companheiro que sabe fazer tudo que é necessário para cuidar do filho e possa compartilhar as tarefas com ele. Isso estabelece maior equidade de gênero dentro de casa e permite que a mulher evolua mais em sua carreira.
Estamos caminhando para um futuro melhor em relação à paternidade e à masculinidade?
Há um tempo, eu diria que sim, mas hoje tenho minhas dúvidas. Muito por conta do movimento red pill e da machosfera. A gente vem assistindo a um movimento em que homens jovens e adolescentes estão se colocando de forma mais conservadora em relação aos padrões de gênero. São meninos e homens que estão crescendo culpabilizando as mulheres pelo sofrimento deles, quando na verdade a culpa do sofrimento deles é do capitalismo e da sociedade tal como está estruturada hoje. A gente vem enfrentando um momento de crise global, mas, ao invés de olhar para o problema real, que é amplo e complexo, grande parte dos homens optou por escolher um bode expiatório, que são as mulheres e o movimento feminista. Então, por conta disso, eu estou realmente muito preocupado.
Publicado em VEJA São Paulo de 7 de agosto de 2026, edição nº3007





