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Perguntar não ofende

Por Ivan Angelo 18 set 2009, 20h19 | Atualizado em 5 dez 2016, 19h44

Meu neto está na idade das perguntas, também chamada idade dos por quês. A expressão em si é curiosa. Deixa entrever, nas suas dobras, que há uma idade própria ou natural para perguntas, ainda que sejam desconcertantes, ou mesmo ingênuas; depois a gente se acostuma ou aceita o que nos é dado e muitas vezes escamoteado.

Em cada circunstância, o garoto exerce o seu direito, e busca explicações. Durante uma chuva forte: “Por que o trovão faz barulho?”.

Lembro-me da explicação que nos davam quando crianças, de que aquele barulho era São Pedro arrastando os móveis ao arrumar a sua casa no céu. Respondiam-nos no nível da fábula, talvez porque os perguntados não soubessem explicar a bronca do trovão. A resposta hoje é menos poética, mas para a cabeça infantil será também satisfatória.

Se ele está passeando de cavalinho no parque e o pônei faz cocô, ele procura saber: “Quem é que limpa o bumbum do cavalo?”. Além da curiosidade, imagino que na cabeça das crianças, a partir de certa idade, tudo tem de ter uma explicação. A necessidade de ir transitando do mundo mágico para o mundo racional leva-as aos por quês. A vontade delas de aprender alia-se ao objetivo de progressivamente colocar o mundo dentro de uma lógica.

Nós, adultos, na nossa pretensão de já termos as respostas, é que vamos abandonando a busca da lógica ao longo do nosso caminho, ou nos tornamos tímidos demais para perguntar, ou não temos pessoas confiáveis a quem perguntar, ou não queremos passar por ingênuos ou mesmo idiotas.

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No fundo, gostaríamos que ninguém risse de nós, que nos dessem atenção e respostas, se começássemos a perguntar.

Por que se ouve tanto falar de pit bulls e rottweilers que mataram crianças ou morderam e aleijaram até o próprio dono, e não aparecem notícias de que algum desses cães tenha estraçalhado bandidos invasores de residências?

Assistimos a essas reportagens sobre presídios, situação dos presos, tráfico de drogas e celulares dentro das penitenciárias, nas quais vemos condenados folgadões comerciando ou telefonando nos pátios na hora preguiçosa do banho de sol, sustentados pela sociedade, e ficamos com a pergunta entalada: por que os presidiários só trabalham se quiserem?

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Gostaríamos de ficar à vontade para fazer até perguntas realmente bobas, como, por exemplo, ao ver facas, garfos e colheres arrumados numa caixa: por que se escolheu dizer faqueiro, e não garfeiro, ou colhereiro? Tive um colega de colégio que, por pândego, fazia perguntas assim, essa inclusive, que os professores odiavam.

Falando sério: por que é mesmo que padre não pode se casar?

Qual é a arma dos estupradores? Por que não são desarmados?

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Por que os políticos chamam aquela intrigazinha miúda, aquele leva-e-traz, aquele troca-troca de política?

Por que candidatos a cargos públicos que não são confiáveis ou que tiveram seu nome envolvido em corrupção e associação com quadrilhas recebem votos nas eleições?

Por que a maioria dos cristãos não pratica o cristianismo?

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Por que escrever Kaká se no português atual a letra “k” só é usada em nomes estrangeiros e seus derivados?

Por que certos locais conhecidos por assaltos, furtos, tráfico, receptação e contravenção, que entram até em guias turísticos das cidades (uns prevenindo incautos, outros disfarçadamente dando dicas a interessados), não são estourados pela polícia?

Por que os carros são fabricados para chegar a 200 quilômetros por hora se a velocidade máxima permitida é 120?

Há muitas perguntas, cada um tem as suas. Para muitos, o trovão continua sendo uma perplexidade.

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