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O silêncio dos pais

Por Walcyr Carrasco 16 abr 2010, 14h11 | Atualizado em 5 dez 2016, 18h51

Há pouco tempo, recebi a visita de um amigo acompanhado por um casal com um filho pequeno. O garoto, inquieto, se remexia no colo da mãe e gritava, enquanto conversávamos. Sem me pedir, a mãe pegou um tamborzinho hindu que estava dependurado na parede e deu para o filho brincar. O menino se acalmou. Continuei a conversa com um olho nas visitas, outro no tambor. Tratava-se de um presente enviado por uma grande amiga que vive na Inglaterra. Na despedida, o garoto continuava com o tambor. Sorridente, a mãe declarou:

— Agora não dá mais para tirar dele! Vai ter de levar!

— Sinto muito, mas é de estimação — respondi.

Brava, a mulher convenceu o filho a me devolver o tamborzinho. Soube mais tarde que me achou um “mal-educado”. Pensei: e o garoto? Vai crescer achando que pode entrar na casa alheia e pegar o que quiser!

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Certa vez recebi a visita de um casal de amigos com o filho de 6 anos. O pimpolho começou a pular no meu pufe de camurça, sem parar, como se fosse uma cama elástica. A mãe olhou e sorriu. O pai nem prestou atenção. As botinhas sujavam o tecido. Fico sem jeito diante da falta de educação alheia. Timidamente, pedi:

— Pare de pular, senão vai estragar o pufe.

Ofendida, a mãe disse não gostar que dessem ordens a seu filho. Meu pufe ficou cheio de marcas. Tive de trocar o tecido! Em restaurantes, então, nem se fala. Em um sábado, eu e um amigo fomos almoçar em uma cantina italiana. Mesas adiante, um garotinho saltou da cadeira. Correu pelo salão aos gritos. Os pais comiam calmamente enquanto ele infernizava o restaurante inteiro. De vez em quando, a mãe o chamava com voz fraca:

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— Vem cá…

O menino não obedecia. Trombou nas pernas de um garçom e caiu no chão. Gritou tão alto quanto um personagem de filme de terror. O pai dispôs-se a abandonar o prato de lasanha para pegá-lo no colo. Ele gritou ainda mais alto. Logo passou. Em minutos, o garoto voltou a se comportar como se estivesse no playground de seu prédio.

É injusto dizer que isso é coisa de brasileiro. Recentemente, em uma viagem a Edimburgo, na Escócia, tomei um ônibus turístico, que percorria a cidade com uma guia explicando seus principais pontos. No primeiro banco se sentava uma mulher com uma menininha linda, de uns 2 anos. A garota não parava de gritar. O passeio se tornou torturante. A guia de meia-idade tentava delicadamente conter a garota. A mãe não dizia uma palavra. Finalmente, a guia pediu:

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— Por favor, fique quieta. Deixe os outros passageiros aproveitarem!

A menina não entendeu. A mãe continuou muda. Ausente.

Pior é quando acontece em viagem de avião. Sei que é exaustiva para uma criança, mas também é desesperador ouvir gritinhos ou choros horas a fio sem que os pais nem tentem resolver a situação.

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Quando criança, eu tinha uma boa ideia de como devia me comportar. Minha mãe avisava ao sair de casa:

— Não vá fazer manha!

Cresci com a noção de que se deve respeito ao próximo. Os pais podem evitar atividades cansativas que alterem o humor da criança. Já vi uma jovem em um museu com o filho de colo. Obviamente, o menino se irritou. Também existem situações inevitáveis, como viagens. Sinto uma solidariedade instintiva diante de pais que viajam com crianças pequenas. Terrível é quando deixam os filhos tripudiarem sem um gesto sequer.

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Definir limites é importante. Que educação é essa que não ensina o respeito ao próximo? Mas talvez certos pais modernos achem que também podem tudo. Esse é o problema.

E-mail: walcyr@abril.com.br

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