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“Nos cruzamos pela primeira vez no ônibus, nem existia Metrô”

A história de amor de Laurice Grassano, 74, que conheceu o marido na Praça do Correio, e os dois estão casados há 48 anos

Por Laurice Grassano, 74 anos, em depoimento a Alice Padilha Atualizado em 24 jul 2020, 03h59 - Publicado em 24 jul 2020, 04h00

“Nós dois trabalhávamos no centro histórico da cidade, eu na primeira unidade das Lojas Americanas e o Nilson com computação em um escritório, logo que chegaram os primeiros computadores por aqui. O metrô ainda estava sendo construído, então a gente só andava de ônibus. Nós nos cruzamos pela primeira vez no ponto final da linha que nós pegávamos, o Jardim Tremembé. A fila na Praça do Correio era sempre enorme, então todo mundo se conhecia, conversava, até furava a fila e ninguém ligava. Por muito tempo foi só amizade entre a gente. Aí ele entrou em férias do trabalho e, quando voltou, estava de bigode e costeleta! Eu achei ele mais simpático, mais bonitão. Um dia entrei no ônibus, ele sentou do meu lado e perguntou: “Você está namorando?”. Eu disse que não e perguntei de volta. Ele também não estava, então me pediu em namoro e eu aceitei. Isso foi em 1970, e dois anos depois eu estava noiva dele. Já são 48 anos de casados.

Nosso namoro inteiro aconteceu no centro velho, em cinemas e restaurantes. Nos bairros não tinha nada, nem McDonald’s. Pouco antes de casarmos, pedi demissão e não trabalhei mais até meus filhos crescerem. Com o que recebi nós poderíamos ter comprado um apartamento, mas o Nilson quis que a gente morasse com os pais dele e usasse o dinheiro para viajar. Fui conhecer o Rio de Janeiro pela primeira vez na minha lua de mel. Ficamos com a família dele por uns três anos e meio e depois disso mudamos algumas vezes. Quando meus filhos já tinham nascido, resolvemos mudar para um apartamento na Avenida Braz Leme, no oitavo andar. Eu nunca tinha morado no alto e não gostei muito da experiência – era difícil descer com as três crianças. A janela dos fundos do apartamento tinha vista para o Campo de Marte e quando o Papa João Paulo II veio pela primeira vez ao Brasil, dava para ver direitinho! Nós até alugamos a janela porque o pessoal ficava doido para ver. Veio inclusive um casal de turcos que tinha uma loja no centro da cidade, os dois muito chiques, com casacos de pele. Eles eram muito religiosos, ajoelharam, beijaram o chão. Ainda nos falamos por algum tempo.

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Nós sentimos muita falta de lugares que a gente frequentava que já não existem mais. O centro era outra coisa, limpinho e bem cuidado. Na Praça da República tinha vários cinemas e casas de entretenimento. Era muito tranquilo, só que a gente tinha que sair cedo por causa do ônibus, que levava uma hora até chegar em casa – e às vezes ainda quebrava no caminho. Minha mãe também me podava muito, porque não queria que eu fosse mãe solteira como ela. A gente ficava vendo televisão na sala — em preto e branco — e ela descia toda hora fingindo que estava indo ao banheiro só para olhar. Ela tinha medo de dar errado, queria que a gente fizesse tudo certinho. Lembro que uma vez cheguei toda contente para contar para ela que ele tinha comprado uma geladeira e uma máquina de lavar, então devia ter boas intenções.

Até hoje nós nos amamos muito e em todos os lugares estamos juntos. Tem algumas briguinhas, claro, mas logo passa. O Nilson tem um coração muito grande e sempre está procurando ajudar. Se deixar, ele dá a alma dele para os outros. Às vezes eu preciso podar um pouquinho. Mas a gente casou por amor, que supera tudo. Eu falo que quero morrer junto com ele, quero que Deus me leve na mesma hora.

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Há dois anos nós estamos morando com a Vanessa, nossa filha. Ela não queria mais que nós ficássemos sozinhos. O Nilson nunca gostou de ficar parado, então ele ajuda muito em casa. Antes ele ia na farmácia da família e ajudava quando necessário, mas agora nós somos prisioneiros (brinca). Nós somos muito caseiros, mas a gente gostava de caminhar, passear de vez em quando, ver os parentes. Agora com a quarentena eles não deixam mais a gente sair para nada. De vez em quando eu ligo para os meus filhos e para as minhas primas e a gente mata um pouco a saudade. É todo mundo muito amoroso e eu sou muito grudada com as pessoas. Se eu pudesse, morava junto com todo mundo.”

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 29 de julho de 2020, edição nº 2697. 

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