Moradores reforçam a vigilância no Morumbi por conta própria

Grupo instalou câmeras nos postes e contratou segurança armada para monitorar as ruas do bairro

Há cerca de um mês, um grupo de moradores do Morumbi se organizou para iniciar um amplo sistema de monitoramento das vias da região. A um custo de 2 000 reais, rateado por oito vizinhos, a Avenida Lopes de Azevedo ganhou as oito primeiras câmeras, cada uma responsável pela cobertura de um trecho de 200 metros do local. Trata-se de equipamentos mais modernos  que os tradicionais encontrados em outros pontos da capital.

Todas as imagens captadas por eles — como de placas de veículos que circulam no entorno, por exemplo — são enviadas em tempo real tanto para aplicativos instalados nos celulares dos moradores como para o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), no centro. Além disso, as cenas não ficam guardadas no interior dos dispositivos, como ocorre nos modelos comuns, mas na “nuvem”, como é conhecido o sistema moderno de armazenamento de dados na web.

“Muitos criminosos, ao invadirem uma residência, tentam inutilizar os aparelhos para evitar registros”, explica o advogado Marcelo Reis Lobo, presidente da Sociedade Amigos da Cidade Jardim. A ideia é espalhar a iniciativa a outros sessenta logradouros do bairro, em um total de 1 500 monitores, até o fim do ano. O custo total chegará a 120 000 reais.

O investimento faz parte de uma série de ações dos moradores para superar uma crescente sensação de insegurança no Morumbi. Apesar de o bairro não enfrentar uma epidemia de violência — neste ano foram registrados doze homicídios, 4,4 para cada 100 000 habitantes, metade da média da capital —, episódios de repercussão na mídia o têm posto em evidência.

Ação policial em setembro deste ano: dez assaltantes mortos

Ação policial em setembro deste ano: dez assaltantes mortos (Marcelo Gonçalves/Estadão Conteúdo)

Em setembro, por exemplo, policiais mataram dez homens prestes a assaltar uma mansão na Rua Puréus. A isso somam-se ainda outros problemas que transtornam o dia a dia de quem vive por ali e ajudam a desvalorizar a região, como pancadões e prostituição (veja no quadro abaixo).

“Tento vender minha casa há quatro anos”, diz o advogado Eduardo Oliveira, cuja residência, próxima ao Jockey Club, é avaliada em 6 milhões de reais. Vias como a Joaquim Cândido de Azevedo Marques e a Adalívia de Toledo têm várias placas de ofertas imobiliárias.

Alguns vizinhos estão apostando em uma medida mais radical para se proteger: a contratação de segurança privada armada, geralmente oferecida por policiais civis e militares de folga. O serviço inclui ronda 24 horas e recepção personalizada nas residências. No caso, o morador avisa ao se aproximar de casa e uma dupla de agentes o espera ao lado do portão.

Casa à venda: desvalorização imobiliária

Casa à venda: desvalorização imobiliária (Antonio Milena/Veja SP)

Cada viatura, que leva dois homens em média, sai a cerca de 20 000 reais por mês, custo dividido entre os habitantes da rua. “Acho até barato”, afirma uma moradora, que paga 2 000 reais pela sua parte no rateio e pede para não ser identificada. “Eu havia deixado de sair de casa e de receber visitas, por medo de assalto.”

Na semana passada, a reportagem de VEJA SÃO PAULO listou pelo menos trinta rondas do tipo atuando naquele pedaço. A estratégia, no entanto, é irregular. De acordo com uma lei federal de 1983, vigias só podem trabalhar armados no interior de terrenos e prédios privados. “Essa situação é um perigo, são pessoas que não têm a responsabilidade de seguir protocolos de segurança”, alerta o coronel da reserva José Vicente da Silva.

A polícia diz que atua para coibir a prática. “Realizamos abordagens e quem é pego com revólver vai preso. Se for um PM, responde a processo administrativo”, afirma o major da Polícia Militar Marcelo Tasso, um dos responsáveis pela área.

Zonas problemáticas

Alguns dos principais transtornos para quem vive na região

Escuridão
Mal iluminadas, vias como a Joaquim Cândido de Azevedo Marques e a Barão do Melgaço são um prato cheio para a ação dos bandidos.

Pancadão em favelas
O Real Parque tem festas constantes nos fins de semana. Em setembro, operação da PM chegou a retirar de lá um palco e uma churrasqueira de alvenaria instalados na calçada.

Prostituição no Jockey Club
Nudez de travestis e tráfico de drogas afugentam interessados em comprar imóveis no pedaço. As ruas Lopes de Azevedo e Carpina estão entre as mais atingidas.

Trânsito
As ruas Doutor Francisco Tomás de Carvalho (conhecida como “ladeirão”) e Doutor Alberto Penteado são propícias para arrastões devido aos congestionamentos nos horários de pico, quando há engarrafamentos de até 2 quilômetros.

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