Ladeira abaixo

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Nos últimos anos, quando avançava de carro pelo moderno Arco Metropolitano, trecho de estrada pelo qual o motorista vindo de São Paulo pela Via Dutra em direção ao norte fluminense evitava passar por causa dos malvistos arredores de Mesquita, Queimados, Nova Iguaçu, Belford Roxo e seus vizinhos da Baixada, eu tinha a sensação de que nem tudo se degradava na Grande Rio. Asfalto atapetado, boa sinalização, postos de serviços chegando e, novidade, iluminação por energia solar, sistema de placas e baterias fotovoltaicas que automaticamente substituíam o sol assim que ele se retirava. Ilusão. Na minha última passagem por lá, vários postes estavam no chão, derrubados pela bandidagem para roubar o equipamento e também para deixar no escuro certos trechos da estrada, mais propícios a assaltos.

Conheço uma família — na verdade, contraparentes meus — que vem apanhando daquele pedaço do Rio há tempos. O patriarca veio de Portugal há mais de 120 anos, fez bons negócios e comprou uma grande posse à beira-mar na Ilha do Governador, trecho da Praia Grande entre dois morros, onde construiu belo casarão. Ele e a patroa tiveram ali no paraíso onze filhos homens. Um dia a Marinha decidiu que precisava daquele trecho de mar, empurrou a família mais para trás, murou, e esta teve de fazer outra casa, sem a praia. Os irmãos foram crescendo, se casando, construindo suas residências no terreno entre os dois morros. Deixaram que necessitados se instalassem nos morros, e hoje os que ainda moram lá vivem entre duas facções do tráfico de drogas, têm de aguentar bailes funk de quinta-feira a domingo, sua entrada na própria casa é controlada por meninos armados de revólveres e metralhadoras, traficantes ficam postados em poltronas na frente de seus portões. Dos filhos daquele pioneiro restam dois, velhos, solteiros e amargos.

A Ilha toda, que já foi balneário turístico, lugar gostoso descrito nas crônicas de Rachel de Queiroz e nos poemas de Vinicius de Moraes, antigos moradores, é hoje pontuada por favelas e pichações que demarcam territórios. Um neto daquele patriarca, que nasceu no local e vive teimosamente lá, já foi sequestrado quatro vezes. A mulher dele levou bala porque não quis parar o carro para um assalto. O marido de uma neta do fundador, morador há sessenta anos, entrou por um beco cortando caminho, deparou com uma arma na cara e, gélido de medo, conseguiu disfarçar apresentando- se como comprador de pó. Se tentasse dar ré e escapar, apavorado com o engano, levaria bala.

Parentes que não moram ali também relatam lambadas que levam do governo. Uma prima, professora a vida inteira, aposentou-se e passa três meses sem receber o benefício; ainda não viu a cor do 13º salário de 2016. O marido de outra possui um pequeno negócio de distribuição de medicamentos e de material hospitalar e vai ter de fechar a empresa porque os hospitais estaduais e municipais não pagam o que compram há muitos meses.

Outro comprou um sítio na região de Itaboraí, que andava próspera com a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), confiando numa venda fácil do imóvel caso precisasse se desfazer dele. O Comperj “deu em águas de bacalhau”, no dizer saboroso dos antepassados lusitanos, e a cidade vê desertos os seus prédios modernos envidraçados, lojas de todo tipo fechadas e pichadas, hotéis abandonados. O sítio virou mico.

Para esse primo, o pior legado da demissão de milhares de trabalhadores do Comperj que vieram de fora foi o abandono dos cães que não puderam levar. Famintos, magros, feios, eles são um retrato, um símbolo, um aviso.

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