Avatar do usuário logado
Usuário

Ladeira abaixo

Confira a crônica da semana

Por Ivan Angelo
15 set 2017, 06h00 • Atualizado em 15 set 2017, 06h00
 (Negreiros/Veja SP)
Continua após publicidade
  • Nos últimos anos, quando avançava de carro pelo moderno Arco Metropolitano, trecho de estrada pelo qual o motorista vindo de São Paulo pela Via Dutra em direção ao norte fluminense evitava passar por causa dos malvistos arredores de Mesquita, Queimados, Nova Iguaçu, Belford Roxo e seus vizinhos da Baixada, eu tinha a sensação de que nem tudo se degradava na Grande Rio. Asfalto atapetado, boa sinalização, postos de serviços chegando e, novidade, iluminação por energia solar, sistema de placas e baterias fotovoltaicas que automaticamente substituíam o sol assim que ele se retirava. Ilusão. Na minha última passagem por lá, vários postes estavam no chão, derrubados pela bandidagem para roubar o equipamento e também para deixar no escuro certos trechos da estrada, mais propícios a assaltos.

    Conheço uma família — na verdade, contraparentes meus — que vem apanhando daquele pedaço do Rio há tempos. O patriarca veio de Portugal há mais de 120 anos, fez bons negócios e comprou uma grande posse à beira-mar na Ilha do Governador, trecho da Praia Grande entre dois morros, onde construiu belo casarão. Ele e a patroa tiveram ali no paraíso onze filhos homens. Um dia a Marinha decidiu que precisava daquele trecho de mar, empurrou a família mais para trás, murou, e esta teve de fazer outra casa, sem a praia. Os irmãos foram crescendo, se casando, construindo suas residências no terreno entre os dois morros. Deixaram que necessitados se instalassem nos morros, e hoje os que ainda moram lá vivem entre duas facções do tráfico de drogas, têm de aguentar bailes funk de quinta-feira a domingo, sua entrada na própria casa é controlada por meninos armados de revólveres e metralhadoras, traficantes ficam postados em poltronas na frente de seus portões. Dos filhos daquele pioneiro restam dois, velhos, solteiros e amargos.

    A Ilha toda, que já foi balneário turístico, lugar gostoso descrito nas crônicas de Rachel de Queiroz e nos poemas de Vinicius de Moraes, antigos moradores, é hoje pontuada por favelas e pichações que demarcam territórios. Um neto daquele patriarca, que nasceu no local e vive teimosamente lá, já foi sequestrado quatro vezes. A mulher dele levou bala porque não quis parar o carro para um assalto. O marido de uma neta do fundador, morador há sessenta anos, entrou por um beco cortando caminho, deparou com uma arma na cara e, gélido de medo, conseguiu disfarçar apresentando- se como comprador de pó. Se tentasse dar ré e escapar, apavorado com o engano, levaria bala.

    Parentes que não moram ali também relatam lambadas que levam do governo. Uma prima, professora a vida inteira, aposentou-se e passa três meses sem receber o benefício; ainda não viu a cor do 13º salário de 2016. O marido de outra possui um pequeno negócio de distribuição de medicamentos e de material hospitalar e vai ter de fechar a empresa porque os hospitais estaduais e municipais não pagam o que compram há muitos meses.

    Outro comprou um sítio na região de Itaboraí, que andava próspera com a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), confiando numa venda fácil do imóvel caso precisasse se desfazer dele. O Comperj “deu em águas de bacalhau”, no dizer saboroso dos antepassados lusitanos, e a cidade vê desertos os seus prédios modernos envidraçados, lojas de todo tipo fechadas e pichadas, hotéis abandonados. O sítio virou mico.

    Continua após a publicidade

    Para esse primo, o pior legado da demissão de milhares de trabalhadores do Comperj que vieram de fora foi o abandono dos cães que não puderam levar. Famintos, magros, feios, eles são um retrato, um símbolo, um aviso.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de 29,90/mês