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Incinerador desativado e outro em vias de ser construído mobilizam movimentos populares

Grupos no Ipiranga e em Perus reivindicam nova política para tratamento da memória e gestão dos resíduos urbanos

Por Luana Machado
16 jan 2026, 08h00 •
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Antigo Incinerador Ipiranga, localizado ao lado da estação Santos Imigrantes, abandonado por décadas pode se tornar local do projeto Usina Eco Cultural (Leo Martins/Veja SP)
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  • Moradora do Ipiranga, Débora Machado lembra como era o bairro durante o funcionamento do Incinerador da Vergueiro, que, entre as décadas de 1960 e 2000, recebia toneladas de lixo hospitalar para ser queimado. Um dos três equipamentos deste tipo que a capital paulista possuía, ele foi desativado em 2001, quando começaram a surgir leis ambientais mais rigorosas. “Era horrível: um cheiro de chorume, os caminhões passavam carregados de lixo e atraíam ratos”, relata a arquiteta, que atua desde 2016 pela revitalização do terreno de 5 000 metros quadrados na Rua Breno Ferraz do Amaral.

    Localizado ao lado da estação Santos-Imigrantes, o antigo prédio está abandonado há mais de duas décadas e chegou a ser revitalizado, depois da pandemia, pelos moradores que se uniram em torno do movimento Usina Eco-Cultural. Eles pedem o uso da área como centro cultural e museu do meio ambiente, preservando a memória do patrimônio, pivô de lutas pelo fim da atividade de incineração na cidade. “Consertamos as grades, plantamos árvores, criamos composteiras, instalamos uma biblioteca e transformamos a guarita em cozinha coletiva e banheiro”, conta Casé Oliveira, biólogo e ativista do Usina.

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    Edifício abandonado: área interna (Leo Martins/Veja SP)

    Apesar das boas intenções, em meados de 2023 o grupo foi expulso do local por embates com o então subprefeito do Ipiranga, o ex-vereador Camilo Cristófaro, que teve o mandato cassado por racismo no mesmo ano. Além da expulsão, o caso rendeu uma multa de 42 000 reais em nome de Débora, que é conselheira da associação. Em dezembro passado, o destino do imóvel voltou ao debate público, com a abertura da licitação para a mudança da subprefeitura para o entorno do equipamento. Nele, consta a demolição do edifício para dar lugar a um estacionamento.

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    (Leo Martins/Veja SP)
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    Em contrapartida, o grupo seguiu marcando reuniões com o município e realizando eventos para mobilizar os vizinhos. “Fizemos pedidos de tombamento, no Iphan está em andamento e avançando. Um espaço como esse é uma oportunidade para debater a história da incineração e os prejuízos desse processo tão danoso”, diz Lourival Aguiar, antropólogo e membro do coletivo.

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    Associação: Lourival, Débora, Casé e Celina, membros da Usina Eco-Cultural (Leo Martins/Veja SP)

    No bairro de Perus, um outro grupo de moradores luta para impedir a instalação de um incinerador no lugar do Aterro Bandeirantes, desativado em 2007. A mobilização começou em setembro de 2025, quando tiveram conhecimento do interesse da concessionária Loga de empreender uma Usina de Recuperação Energética. As UREs, como são chamadas, são uma nova estratégia da prefeitura para tratamento de lixo, inspirada em instalações europeias e asiáticas. Elas prometem reduzir o volume de resíduos sólidos urbanos destinado aos aterros e gerar energia por meio de um processo de tratamento térmico.

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    “É um assédio instalar a usina em uma região periférica, na qual as pessoas não possuem condições adequadas de acesso a serviços de saúde”, diz Thaís Santos, química e cofundadora da Comunidade Cultural Quilombaque, onde o movimento, batizado de Incinerador em Perus Não!, se reúne. Ela cita a preocupação com a população da Terra Indígena Jaraguá, localizada a cerca de 7 quilômetros do aterro, e outro importante vizinho: o Parque Anhanguera, um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica do estado, que abriga um Refúgio de Vida Silvestre.

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    Reunião: movimento Incinerador em Perus Não!, na Comunidade Cultural Quilombaque (Jessica Moreira/Divulgação)

    Em seu manifesto, o grupo cita o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos de São Paulo, que contraindica a queima de resíduos a fim de reduzir emissões de óxido nitroso, composto com potencial de contribuir 310 vezes mais para o aquecimento global que o gás carbônico. No plano, a reciclagem, compostagem e cooperativas são definidas como prioridades. A gestão municipal afirma que a nova usina vai empregar 350 pessoas e possibilitar a recuperação de cerca de 64% dos resíduos sólidos. “Não foram identificados riscos relevantes à população do entorno, desde que sejam cumpridas as condicionantes do licenciamento ambiental”, afirmou a prefeitura, em nota, via SP Regula, a agência reguladora de serviços públicos.

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    Publicado em VEJA São Paulo de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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